Monthly Archives: janeiro 2012

Vidas de Dante – Escritos Biográficos dos Séculos XIV e XV

Vidas de Dante – Escritos Biográficos dos Séculos XIV e XV

Lançamento da Ateliê Editorial recupera escritos sobre Dante Alighieri dos séculos XIV e XV que permitem situar e comparar informações das biografias modernas do poeta

Dante Alighieri foi objeto de várias biografias ao longo das décadas seguintes à sua morte. São elas que em boa parte fundamentam suas biografias posteriores até hoje. Mas tal material acabou sendo diluído nessas sínteses e ficando à sombra da figura luminosa que ele próprio ajudou a criar. Neste livro Eduardo Henrik Aubert reúne e traduz pela primeira vez em português alguns desses testemunhos dos séculos XIV e XV sobre Dante. O contato direto com esses relatos permite ao leitor situar, cruzar e comparar informações que em muitas biografias modernas do poeta nem sempre foram bem aproveitadas.

Entendendo que a obra de Dante Alighieri (1265–1321) está intimamente articulada às condições concretas da vida do autor, este livro propõe a tradução anotada de todas as biografias de Dante escritas até a década de 1430. A leitura desses textos mostra que a vida de Dante e as Vidas de Dante – suas biografias – não pertencem a planos autônomos da realidade, mas se imbricam como atos e processos responsáveis pela estruturação do mundo social. Assim, esta coletânea instiga o leitor a correlacionar história literária, biografia histórica e história social, e, por fim, possibilita que se faça sua arqueologia, oferecendo a oportunidade de examinar tanto a obra do poeta como fonte do indivíduo quanto o indivíduo como fonte da sua obra.

Eduardo Henrik Aubert é Mestre em História Social pela USP e doutorando em Histoire et Civilisations na École des Hautes Études en Sciences Sociales – Paris. Publicou diversos artigos e capítulos de livros sobre história medieval e historiografia no Brasil e no exterior.

Interferências na Escrita – Parte 1

Interferências na Escrita - Alex Sens

Como se aguardassem um sinal sutil, um comando que aquecesse a força motriz da criatividade, as mãos flutuam indecisas sobre o teclado. Entre o mergulho dos dedos e a transformação do branco em linguagem ao menor movimento das falanges, o mundo respira, o próprio silêncio é silenciado.

Uma pomba no galho de um eucalipto deixa escapar um lamento, lembrando a nota de uma flauta doce atravessando as folhas como uma flecha de som. Outro lamento se segue, e mais outro, a sinfonia da pomba é o primeiro corte no silêncio. Um gavião faz companhia, dessa vez no telhado, inclina o pescoço rajado e com um leve frêmito começa seu estridente aviso de fome. Outro corte no silêncio. As nuvens incham como grossos novelos de água escura, uma grande sombra é formada sobre a floresta e os bugios pulam na escuridão das árvores, gargalhando e se preparando para a chuva iminente. Um trovão estoura e rola, como se Deus, durante o boliche, alargasse o tempo para sua bola de poliuretano deslizar sobre o céu.

O processador do computador recupera o fôlego. Os dedos ainda flutuam inquietos.

Da sala, um pigarro corta outra fatia de silêncio, termina como um gemido cansado, mas lembra um motor tentando funcionar através da melhor entonação de voz. Da televisão, a mulher de voz rouca (talvez ela precise de um pigarro) anuncia que o número de desaparecidos no naufrágio do navio Costa Concordia pode passar de trinta, então a matéria começa com o som de ondas quebrando nas rochas que cingem a Ilha de Giglio. Da cozinha, ainda que não se possa ouvir com nitidez, uma faca ensaboada cai na bacia de inox, o som de um acidente; outra cai no chão, “visita masculina”, diria a avó. Ao mesmo tempo, a chuva se rompe dos novelos d’água e cai no telhado como bicos de corvos quebrando peças de cerâmica. Do quarto, um aspirador de pó é ligado, outro lamento dolorido, contínuo, quase abafado pela tempestade.

O mais suave som – como duas camadas de vidro sobrepostas e um jato de luz incidindo sobre elas; quanto mais camadas, mais sombra, mais penumbra, mais se torna turva a criação. Assim como no sono, ou no início da insônia, os ruídos são novas camadas de vidro que vão escurecendo a luz do desejo – do desejo de dormir, no caso da insônia produzida pela falta de silêncio, ou do desejo de escrever, no caso do pensamento interferido pelo mundo externo.

Um pequeno grupo de escritores pode preferir escrever ouvindo música clássica, outro o som do vento ou da chuva amassando as folhas secas de uma árvore; um terceiro pode dar preferência àquela escrita cuja única interferência sonora é a das teclas estourando miúdas na velocidade dos dedos – faço parte deste grupo, talvez o maior deles, assim como do anterior. Ah, nada mais prazeroso do que ouvir a criatividade em ebulição, correndo pelo teclado de um computador ou de uma Remington! Mas desde que estes sons sejam produzidos por você, não pelo vizinho escritor, pois na sua mente de ideias incríveis obliteradas e já cansada do tec-tec-tec, ele parece mais inteligente, mais preparado para o combate com a literatura, um desejo maldoso de mostrar vantagem. O inferno são os outros, mas os prazeres secretos somos nós.

Um novo trovão rola no céu, seguido por um estouro que derruba dez palavras. Strike de Deus.

Coluna Autor sobre Autor - Alex Sens

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Mostra fotográfica Gigantes em miniatura, de Flávio Meyer (Santos-SP)

Mostra fotográfica Gigantes em Miniatura de Flávio Meyer

O artista visual Flávio Meyer flagra Santos a bordo de um helicóptero e, através de efeitos de ilusão de ótica, miniaturiza pontos míticos da cidade como o Monte Serrat, a Vila Belmiro, a Bolsa do Café, a igreja do Embaré, o Valongo, a Prefeitura, a Ponte Pêncil e o Porto.

As imagens produzidas pelo artista subvertem a relação de imponência da cidade diante do homem e instigam a imaginação do observador a fantasiar que é um gigante em uma divertida e detalhada cidade de brinquedo.

“As obras fotográficas de Flávio Meyer contêm a realidade acrescida de poesia. Sua arte visual consegue reter o Devir instantâneo de um fluxo: ela não congela, ela desdobra o visível através do encantamento pela cartografia celestial de suas paisagens e pela sutileza dos detalhes que transcendem o foco iluminado de sua apreensão. É um mestre em dominar a técnica sem perder o poder de invenção.” Flávio Viegas Amoreira

“Gigantes em Miniatura”
Mostra Fotográfica de Flavio Meyer

curadoria – Flávio Viegas Amoreira, escritor e jornalista.

Pinacoteca Benedito Calixto

Av. Bartolomeu de Gusmão, nº15

De 07 a 27 de fevereiro
Vernissage dia 7 às 19hs

Veja mais sobre o artista em:

www.flaviomeyer.com.br

Campo e Contracampo: o bloco mágico em As Canções, de Eduardo Coutinho

Documentário de Eduardo Coutinho

É inevitável a comparação entre As Canções (2011), documentário mais recente de Eduardo Coutinho, e Jogo de Cena (2007), também dirigido por ele. Os dispositivos são praticamente os mesmos: o depoente diante da plateia vazia, Coutinho, o entrevistador, no contracampo e fora de quadro. E só. Ou quase.

Jogo de Cena, talvez o melhor documentário realizado no Brasil na última década – e sem dúvida um dos melhores de todos os tempos –, põe em questão o embate entre realidade e ficção, atriz e personagem. Sentado, de frente para a platéia vazia, o diretor Eduardo Coutinho conduz a entrevista. Depois, uma nova história, contada/vivida por mais uma mulher. Mas, no meio do depoimento, entra em cena outra pessoa, vivendo a mesma história. Ora trata-se de atrizes conhecidas, ora menos conhecidas; às vezes trata-se de anônimas. O efeito é perturbador. O espectador não distingue quem de fato viveu o drama e quem o está interpretando, com a plateia invisível ao fundo. Atrizes desconhecidas podem estar interpretando, atrizes conhecidas podem contar eventos de suas vidas pessoais, muitas são as possibilidades – os pressupostos são postos em sobressalto. E então, como diria o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, toda tentativa de elucidação traz de volta o enigma: a história salta.

O que mais Coutinho poderia desenvolver então, valendo-se de formato análogo, neste As Canções? Em entrevista a Nina Rahe, o próprio admite: “[…] Sei que a crítica irá dizer que [o filme As Canções] é uma diluição de Jogo de Cena e que não fui adiante, mas existe nele algo sobre música que nenhum outro filme possui, pois é possível entender que a canção e o Brasil têm algo de particular. É também um trabalho em que deixo de perguntar às pessoas coisas como ‘onde você nasceu’. Não quero fazer mais isso e dessa forma sinto que parei”.

De fato, em certa medida, não se veem muitas novidades em As Canções. O que se percebe primeiro é que, desta vez, ao invés do cruzamento de histórias, o fio condutor do longa-metragem são as canções que marcaram a vida dos homens e mulheres entre 22 e 82 anos. Os depoimentos são tocantes e, se o efeito não é arrebatador como em Jogo de Cena, é bonito contemplar as “dores e delícias” daquelas vidas que se desfiam a partir das canções e a elas retornam.

Em um texto curto mas fundamental – ”Notas sobre o Bloco Mágico” (1925) – Freud traça uma analogia entre o aparelho psíquico e o bloco mágico (nos dias de hoje, o brinquedo é conhecido como “lousa mágica”). Escreve Freud: “O Bloco Mágico é uma tabuinha feita de cera ou resina marrom-escura, com margens de papelão, sobre a qual há uma folha fina e translúcida, presa à tabuinha de cera na parte superior e livre na parte inferior. Essa folha é a parte mais interessante do pequeno aparelho. Consiste ela mesma de duas camadas, que podem ser separadas uma da outra nas bordas laterais. A camada de cima é uma película de celuloide transparente, a de baixo é um papel encerado, ou seja, translúcido. Quando o aparelho não é utilizado, a superfície de baixo do papel encerado cola-se levemente à superfície de cima da tabuinha de cera” (trad. Paulo César de Souza). Os traços ficam permanentemente marcados na cera embora possamos levantar a dupla folha que a cobre e supostamente “apagar” o que fora escrito, liberando assim espaço para novas inscrições.

O que as canções revelam, no longa de Coutinho, são as marcas presentes na tabuinha de cera. Como um sonho, as músicas reativam as inscrições do vivido, as quais por sua vez adquirem novas tonalidades diante do entrevistador, como se a câmera – e aqui a analogia com a película é inevitável – fosse mais uma camada das folhas do bloco mágico. Quer dizer, há um duplo movimento (literalmente) regido pelas músicas: ao mesmo tempo em que ocorre o resgate do passado, o próprio processo é fundante de uma nova experiência e, portanto, de novas possibilidades.

Coutinho se deu conta disso em Jogo de Cena? Não podemos saber. Ocorre que, se no documentário de 2007 o diretor sentava-se diante da plateia, assumindo a condição de artista (não custa lembrar que há um fino trabalho de edição, fundamental para o efeito produzido pelo filme), em As Canções quem se senta diante da plateia, vazia como em Jogo de Cena, são os entrevistados. Campo e contracampo se invertem. Coutinho assume a perspectiva do público; enquanto espectador, agora ele é a plateia. E, enquanto tal, não esconde que fez o filme “por prazer” – a fruição estética que um drama bem contato – ou bem cantado – proporciona. Afinal, de que valem as inscrições no bloco de cera se não forem compartilhadas?

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Novo romance da Ateliê: Trajetória em Noite Escura, de Naoya Shiga

Livro Trajetória em Noite Escura, de Naoya ShigaA Ateliê Editorial lançou recentemente o romance Trajetória em Noite Escura. Escrito por Naoya Shiga, o livro conta a história de Tokito Kensaku, personagem principal e uma espécie de alter-ego do autor, e tem como pano de fundo o processo de modernização e ocidentalização da sociedade japonesa. Kensaku vive em conflito consigo mesmo e com o mundo que o rodeia: ou pertence à velha guarda e não aceita os novos costumes que se impõem, ou tem espírito inovador. Ele sente dificuldade de encontrar-se no limiar entre o velho e o novo e para recompor sua identidade faz três viagens, que irão revelar para o leitor o eu profundo do protagonista.

No começo do século XX, o Japão, um país de tradições milenares, inicia um processo de abertura para o Ocidente e recebe uma série de influências culturais. Uma delas, no âmbito da literatura, será o naturalismo. Assimilado e desenvolvido pelos grandes escritores japoneses do século, a partir da leitura de Zola, Maupassant, Turgueniev, Dostoievski, o movimento representará artisticamente essa época de profundas transformações e muitas incertezas. Naoya Shiga representa esse período, é um dos principais expoentes da literatura japonesa do século XX e levou cerca de vinte e cinco anos para escrever este romance, sua obra de maior fôlego.

Traduzido por Neide Hissae Nagae, esse trabalho faz parte da sua dissertação “Ficção e Realidade em Trajetória em Noite Escura (An’ya Kôro), de Naoya Shiga” apresentada em 1999, à área de Língua, Literatura e Cultura Japonesa da Universidade de São Paulo. Nagae foi incentivada por sua banca examinadora à publicação dessa tradução, graças ao valor literário da obra e ao ineditismo dos trabalhos do escritor em português. Este livro é estruturado em duas partes e cada parte é subdividida em dois tomos, relativamente longos, com doze a vinte capítulos, totalizando 65 capítulos. Além das duas partes, há uma abertura com o prefácio, que traz os informes sobre o relacionamento de Kensaku, seus pais e o avô paterno, através das memórias da infância do personagem.

Naoya Shiga (1883-1971), escritor bastante prestigiado no Japão, se destacou por seu estilo singelo, sucinto e preciso nas explanações dos detalhes das realidades objetivas que nos cercam – análises detalhadas dos melindres psicológicos do ser humano. Shiga fez parte do grupo Shirakaba, que reunia escritores e pintores apreciadores das literaturas e artes plásticas do Ocidente e Oriente. Apesar de discorrer sobre temas variados em suas obras, sua tônica sempre foi a captação das inconstâncias psicológicas que se processa no protótipo japonês culto, em seu viver do dia a dia, cujo exemplo máximo é sua obra Trajetória em Noite Escura.