Monthly Archives: outubro 2011

Generosidade e Gratidão em Arte, Dor

Arte, Dor - João A. Frayze-PereiraO livro Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise (Ateliê Editorial), de João A. Frayze-Pereira, foi recentemente lançado em segunda edição – revista e ampliada (a primeira edição é de 2006).

João Frayze é psicanalista, livre-docente pela USP e crítico de arte. Arte, dor reúne uma série de trabalhos que fazem do autor um dos nomes mais importantes – talvez o maior deles – em Psicologia da Arte no Brasil.

Os capítulos, embora independentes entre si, compõem uma tese; tese que se desenvolve pelo negativo, isto é, pela incansável desconstrução da realidade ingênua, de conceitos cristalizados, em suma, por aquilo que o fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty, um dos autores mais apreciados por Frayze-Pereira, denominava “questionamento da fé-perceptiva”. Não por acaso, o capítulo final intitula-se “Inconclusão: psicanálise e crítica de arte” (grifo meu).

Mas de que trata o livro?

“Situada entre a Estética e a História da Arte”, a Psicologia da Arte “requer a presença da psicanálise”, uma vez que “a abertura do psicólogo social para a arte dependerá principalmente de sua disposição, como espectador da arte, para introduzir-se nesse campo abissal […] correndo o risco da vertigem e o da perda de pontos fixos”. Assim, o intérprete, “ao se abrir para o campo das obras”, terá de se haver com “questões de ordem transferencial” e, “consequentemente, comprometer-se”. Daí, segundo Frayze-Pereira, a psicanálise se impor como uma perspectiva necessária dentro desse “jogo interdisciplinar”.

Portanto, como já diz o próprio subtítulo, o livro irá abordar “inquietudes entre Estética e Psicanálise”. Cabe esclarecer, contudo, que muitas são as possibilidades de se inclinar a essa relação. A postura assumida por Frayze-Pereira, tal qual explicitada pelo próprio na Introdução do livro, é a seguinte: “diante do novo, diante de uma obra em processo ou em exposição, isto é, sempre em vias de se fazer e um enigma a nos interrogar, não são a ‘escuta clandestina’ e o ‘olhar oblíquo’ os meios privilegiados para referenciar nas margens ou no bastidor, nas lacunas ou no silêncio, a ‘potência do irrepresentável’? (os termos entre aspas [incluídos por Frayze-Pereira] são de Murielle Gagnebin)”. Continua o autor: “é o não-dito (ou o não-visível) que é capaz de revelar criativamente uma história ou uma sucessão de acontecimentos no decorrer da análise de uma obra. E nesse processo de instauração de uma leitura é o ponto de vista do espectador que paulatinamente se infiltra no campo da criação, uma vez que a obra também se faz tributária do olhar que a interroga”.

Para trabalhar com essa implicação entre psicanálise e arte, o autor recorre inicialmente ao já citado Merleau-Ponty e a Michel Foucault. É a partir – e por meio – desses dois autores que Frayze-Pereira nos apresenta uma leitura densa e crítica da psicanálise, que é atravessada o tempo todo pelo paradoxo implicado na relação artedor, inquietação primeira e última deste belo trabalho.

Além da Introdução e da Inconclusão, o livro é divido nas seções Problemáticas, Fundamentos e Análises. Ainda, a publicação conta com o prefácio de Jacques Leenhardt, o prefácio à segunda edição de Camila Salles Gonçalves – ótima porta de entrada às reflexões que se seguem – e, ao final, há o posfácio de Maria Helena Souza Patto, que também assina a orelha do livro, texto que mapeia historicamente a trajetória de João Frayze, dando luz à poesia inerente ao percurso trilhado pelo autor.

Nas Problemáticas, Frayze-Pereira delimita o campo a partir do qual ele irá abordar a complexa relação entre arte e psicanálise. O autor trabalha conceitos-chave –psicanálise implicada, experiência estética, entre outros – sempre comprometido com a História da Arte e com a entrada desta no campo das investigações psicológicas (e vice-versa): “A aproximação entre a Arte e a Psicologia não é um movimento recente. Muito anterior ao próprio advento da Psicologia como disciplina científica, na verdade, foi a própria Estética que se abriu à Psicologia que estava por vir”.

A seção Fundamentos reúne reflexões teóricas – problemas de pesquisa – que decorrem das problemáticas desenvolvidas anteriormente. Cabe destacar, aqui, o capítulo que fecha os Fundamentos: “O corpo como obra de arte: a unidade do múltiplo”. A temática da correspondência das artes e da unidade dos sentidos, do meu ponto de vista, é das mais relevantes nas discussões e análises empreendidas por Frayze-Pereira, presente tanto nas poéticas mais espinhentas – a análise sobre Van Gogh ou sobre a banalização do mal na arte contemporânea, por exemplo – quanto na “generosidade e gratidão” da artista Amélia Toledo, ensaio que encerra a seção Análises.

Vale dizer, foram incluídas duas análises na segunda edição do livro: “Arte e inveja na Era do Vazio”, questão extremamente atual na clínica psicanalítica e no ambiente das artes, e “Arte-crítica: Louise Bourgeois”, artista que mantém estreito vínculo com a psicanálise mas que, nem por isso, revela o enigma contido em suas produções, mas, em direção oposta, “Bourgeois figura entre tais artistas que assimilam a função da crítica em suas propostas plásticas”. Ao “subverter o instituído”, Louise Bourgeois, segundo João Frayze, antecipa historicamente “certa tendência da psicanálise contemporânea para a qual o fazer psicanalítico não é uma operação de descoberta de conteúdos psíquicos ocultos sob a conduta manifesta dos indivíduos, mas o processo interpretativo que Fabio Herrmann define como ruptura de campo. Trata-se de um processo, aparentado à arte, que interroga a lógica que inconscientemente fixa os modos do indivíduo ser no mundo, desconstruindo aquilo que se apresenta banalizado e consolidado na sua existência”.

Quanto às inconclusões, cada qual que extraia as suas. Arte, dor – inquietudes entre estética e psicanálise é um compêndio sobre esse tema, certamente útil a artistas e psicanalistas, mas também a leitores interessados. É que, em que se pese a densidade dos ensaios, a linguagem é fluida, límpida, e evita, com sucesso, certos academicismos que mais se prestam a afastar o leitor do texto. Arte, dor, ao contrário, captura o leitor e, sendo suficientemente bom, permite que ele se perca em suas (entre)linhas, para – quem sabe? – poder crescer em meio ao desassossego do doloroso caminho rumo à generosidade e gratidão.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Escritor e psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte (IP-USP); autor do livro de contos Do avesso (Com-Arte) e de Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp).

O cardápio de livrarias da Capital Mundial do Livro

Guia inédito rende homenagem à Buenos Aires, que está ainda mais livreira este ano
Buenos Aires é conhecida pela sua tradição livreira. A cidade tem uma livraria para cada 6 mil habitantes – no Brasil, a média é de 64 mil habitantes por livraria. Um dos motivos deste sucesso livreiro foi a emigração de vários editores espanhóis para a Argentina, durante a guerra civil na Espanha (1936 – 1939). Este ano, Buenos Aires foi a décima primeira cidade designada Capital Mundial do Livro pela UNESCO. Até abril de 2012 a cidade estará recheada de programações para todos os gostos, como obras de teatro gratuitas nas ruas, passeios com temática literária e a Feira do Livro de Buenos Aires, que se encerra no dia 7 de maio.
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A Ateliê preparou um guia especial para quem deseja explorar o mundo literário da cidade. De autoria da jornalista Adriana Marcolini, com fotos de Alejandro Lipszyc, o guia contém informações básicas e histórias saborosas sobre as 50 livrarias portenhas selecionadas pela autora. Inclui desde as enormes, que lembram um supermercado, até as pequenas, super-acolhedoras. A obra é inédita no Brasil e traz mapas de localização das livrarias e muitas dicas. Clique para ampliar o mapa de livrarias do centro de Buenos Aires:
Livrarias no centro de Buenos Aires

O machado é para o lenhador como a máquina de escrever para o…

Autor sobre Autor - Coluna do Alex Sens

A figura do cozinheiro geralmente é representada por um homem de roupas claras pontilhadas por botões escuros e um rosto arredondado encimado por um chapéu branco de mestre-cuca; a do lenhador, por um homem de camisa axadrezada, jeans apertados e membros superiores fortes segurando um machado; a da bailarina, por uma mulher jovem e de corpo esguio, com cabelos severamente presos, sapatilhas de cetim e uma saia de tule gaze. A figura do escritor, assim como a do pintor, é comumente representada por seus materiais de trabalho, e não por sua indumentária ou aparência física. No imaginário romântico, o escritor está sempre sentado defronte a uma mesa onde estalam as palavras de uma máquina de escrever, ou correm com som de lixa as letras líquidas de uma caneta-tinteiro sobre o papel, ou cinzentas de grafite. Com o computador, são as teclas suaves quebrando como conchinhas ao encontro da inquietação dos dedos – Rápido! Rápido! Antes que a ideia tombe do lado de cá e se perca para sempre!

Você pode tirar o cigarro da boca do escritor, pode puxar sua caneca de café fumegante e não devolvê-la, pode até mesmo puxar sua cadeira, virar sua escrivaninha, revirar sua concentração e tirá-lo de sua água-furtada: nada disso afetará sua soturna figura enquanto estiver munido de seus instrumentos de escrita. Tire sua máquina de escrever e o encanto se quebra, visualmente ele não é um escritor. Esse “utensílio” da escrita é o que permite ao escritor trabalhar e ele muda de um para outro por necessidade ou preferência, assim como um pintor prefere um pincel de cerdas longas enquanto outro precisa de um com cerdas curtas.

A maioria dos escritores antigos ou clássicos (porque um não se coaduna necessariamente ao outro) tem em comum a máquina de escrever. Numa época em que o computador era impensável, a máquina foi o objeto mais moderno da escrita. Escrever um livro inteiro manuscrito nunca foi tarefa simples, também não ajuda o fluxo, e quando combinados, agilidade mais fluxo resultam numa caligrafia ilegível, como a de Machado de Assis, que às vezes não compreendia o que havia escrito. Sylvia Plath tinha o conhecido hábito de manter diários, e por isso escrevia muito à mão, embora tenha feito o mesmo com sua Royal, uma máquina de escrever de cor preta onde espancou vários poemas e com a qual foi fotografada algumas vezes. Caso muito parecido é o de Jack Kerouac, pai da “geração beat”. Kerouac escrevia muito à mão, sobretudo quando o impulso da escrita era incontrolável, e por isso qualquer meio era válido. Também possuiu uma máquina, uma Underwood, alta e que lembra uma arquibancada de letras circuladas por anéis prateados. Virginia Woolf escrevia sobretudo com canetas de pena metálica, muitas vezes usando uma tinta arroxeada, e outros tipos de caneta, sempre em folhas avulsas e cadernos largos e altos, sem pauta – acredita-se que alguns deles encapados por ela mesma. Além de ter tido seu próprio “lodge”, um cômodo fora da casa exclusivamente para a escrita, Virginia também chegou a escrever de pé, numa espécie de leitoril, a exemplo da irmã Vanessa, que era pintora. Em Dublin, na Irlanda, está exposta a máquina de escrever do modernista James Joyce, mas também foi outro escritor que não dispensou o trabalho manuscrito, tendo muitas vezes problemas com sua criação pois usava óculos de lentes grossas e chegou a passar por onze cirurgias para tratamento de miopia, glaucoma e catarata. Jane Austen, clássica romancista nascida no século 18, escrevia com caneta de pena numa pequenina e circular mesa de madeira, onde mal cabiam suas folhas e o pote de vidro com nanquim. Para editar sua obras, recortava as palavras com uma tesoura. Um caso curioso, mas não de todo incomum, foi o da dama do crime Agatha Christie. Por ter disgrafia, uma rara doença que a deixava incapacitada de escrever de maneira legível, ditava todos os seus romances para uma secretária.

Cada escritor escreve de um modo, num determinado tempo, com uma determinada postura e determinados instrumentos. Já escrevi em cadernos escolares, em folhas de fichário durante as entediantes aulas de Química, numa Olivetti azeitona, em computadores emprestados e meus próprios computadores. Hoje faço esboços em Moleskines, sempre com a mesma caneta preta, e escrevo as várias versões do que será literatura no computador, porque as teclas me permitem uma agilidade tal que acompanha o fluxo criativo. Gosto do romantismo do papel de qualidade, tenho esse fetiche pela papelaria de luxo com suas canetas grossas de tinta escura como é escuro o enredo ainda não atingido pela luz da criação, mas nunca dispenso qualquer forma de colocar a coisa-texto para existir. Escrever é marcar essa existência e o processo pela qual ela se dá não pede razões – é absolutamente medular.

Autor sobre Autor, Coluna do Alex Sens

Ateliê Editorial é finalista em duas categorias do Prêmio Jabuti 2011

Finalistas Prêmio Jabuti 2011

Ficção Interrompida [uma caixa de curtas] e O Altar & o Trono – Dinâmica do Poder em O Alienista são os finalistas.

A CBL divulgou recentemente os finalistas do Prêmio Jabuti 2011. Este ano, a Ateliê concorre em duas categorias. O livro de contos curtos, Ficção Interrompida [uma caixa de curtas], de Diógenes Moura, concorre na categoria Contos e Crônicas. A obra venceu o Prêmio APCA 2010 de Literatura, na mesma categoria.  E o livro de ensaio, O Altar & o Trono – Dinâmica do Poder em O Alienista, de Ivan Teixeira,  está entre os melhores da Teoria / Crítica Literária. O autor da obra venceu, este ano, o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras.
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A próxima fase do concurso acontece no dia 18 de outubro, quando serão anunciados os vencedores de cada categoria. A cerimônia de entrega do Jabuti – 4 de novembro –  revelará o Livro do Ano Ficção e o Livro do Ano Não-Ficção.
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Na edição anterior do concurso, a Ateliê venceu na categoria Biografia, com a obra Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory
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