A escrita de luz na tela em Lavoura Arcaica

Filme Lavoura Arcaica do romance de Raduan Nassar

Há diferenças significativas entre as transições de tempo e espaço em um livro e em um filme. Lavoura arcaica (1975), romance de Raduan Nassar, é uma prosa poética que flui de forma assombrosa. Com efeito, é possível que apenas uma palavra sirva de ponte entre tempos longínquos – lugares distintos.

A narrativa, de atmosfera trágica, consiste na volta de um filho para casa, onde houve uma relação incestuosa com uma das irmãs. André, o narrador-personagem, costura os estilhaços que assolaram sua família em texto. É o que ele também realiza, dessa vez nas condições de narrador e personagem do filme homônimo (2001, dir. L. F. Carvalho), ao voltar o olhar àquilo que viveu e costurar os flashes de memória em um fluxo mais ou menos contínuo.

Ao cortar e costurar as cenas na montagem, o cineasta Luiz Fernando Carvalho o faz identificado com o olhar do protagonista da trama. Porque, no texto de Raduan Nassar, o narrador-personagem assume a seguinte condição: ao mesmo tempo em que rememora o drama, ele também o contempla, digamos assim, de fora. André busca, por meio do olhar, constituir-se enquanto sujeito.

Olhar e discurso se fundem em sua trajetória. É a posição privilegiada do narrador que lhe permite montar as sequências de imagens e, ao mesmo tempo, são essas imagens que disparam a sua narração. André reconstrói a sua história ao mesmo tempo que dirige o olhar àquilo que viveu.

“O eu futuro se ilumina num eu passado”, eis o “movimento instantâneo e incessante” chamado presente, diz Jean Epstein. E é só no cinema que ele pode ser assim representado, pois, como nos lembra Merleau-Ponty, é a sucessão de imagens que cria a nova realidade.

Em Lavoura arcaica, a reciprocidade entre o discurso e o olhar contemplativo parece ser a correspondência, no filme, para o fato de o protagonista, ao transitar de uma margem à outra do romance, confundir-se com essas margens. Nestas, trágico e lírico se fundem; cada palavra é densamente carregada de sentidos, e André conta a história, a despeito do trágico desfecho, ou por causa dele, muito saudoso. Sua trajetória é a própria passagem do tempo: a passagem do tempo é a sua trajetória.

Irrecuperável e imprescindível, o tempo pesa sobre André com toda a sua intensidade. O exercício de composição da narrativa vai implicar que ele reviva, ou melhor, viva pela primeira vez de novo a sua história. Em última instância, os estilhaços dolorosos de que é feito Lavoura arcaica são os mesmos que, ao constituírem o narrador-personagem, constituem-se também por ele. A verdadeira lavoura, então, é o campo de batalha no qual digladiam pai e filho, o velho e o novo, livro e filme.

Fecundar essa lavoura é empreender ressignificações: lançar-se de volta ao porvir. A realização amanhã daquilo que (não) houve ontem. Mais ou menos como os contornos de uma fotografia, sempre a revelar com precisão onde estávamos, sem contudo jamais dizer onde estamos. Ou mesmo uma sucessão delas, em 24 quadros por segundo, que no melhor dos casos dá conta de um movimento sempre fugidio.

Colunista de Cinema e Literatura Renato Tardivo

.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *