Monthly Archives: setembro 2011

Sensibilidade e suspense na trajetória de Grenoille, em O Perfume

Filme "O Perfume", baseado no romance de Patrick Süskind

… as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.

Patrick Süskind

O Perfume faz parte daquela categoria de livros devoráveis em poucas horas. Seu autor, Patrick Süskind, nascido alemão e tendo estudado História Moderna e Medieval na Alemanha e França, escreveu roteiros de televisão e contos, e O Perfume é seu romance de estréia. A adaptação fílmica, de 2006, levou a direção do também alemão Tom Tykwer e dois prêmios no European Film Awards (Melhor Fotografia e Prêmio de Excelência, se referindo à cenografia).

Süskind narra com maestria a história de Jean-Baptiste Grenouille, nascido em meio à decadência e sujeira das feiras de Paris no século XVIII. O bebê, expelido do útero da mãe do mesmo modo que esta arranca as tripas do ventre do peixe, é deixado à calçada. Logo, é revelado aos leitores o talento de Grenouille. Seu olfato vai além dos parâmetros humanos, sendo capaz de identificar cada nota e fragrância dos mais variados perfumes; de sentir cheiros aparentemente inexistentes como o do vidro; de percorrer quilômetros reconhecendo o que estiver no caminho. Contudo, Grenouille não possui cheiro próprio, tornando-se praticamente invisível em certas situações. No decorrer da história o dom de Jean-Baptiste permite que ele se insira no mundo dos perfumistas e, com isso, sua obsessão começa; ele está decidido a criar o melhor perfume do mundo. Um pequeno detalhe faz do protagonista um serial-killer. A criação de Grenouille, o melhor perfume já produzido na história, tem em sua essência a morte de treze mulheres.

As passagens no livro que detalham a busca do protagonista por odores inalcançáveis são poeticamente descritas. Formam-se imagens esvoaçantes e sensuais na mente do leitor, que o induzem a torcer a favor do assassino, o levam ao mundo olfativo de Grenouille, o seduzem. A sensibilidade de Süskind ao escolher as palavras encanta. Sua literatura é tão apaixonante, que foge da narração típica de seriais killers, provocando certa cumplicidade entre assassino e leitor, fazendo este torcer pelo sucesso daquele.

No longa-metragem Jean-Baptiste Grenouille é interpretado por Ben Whishaw, que transborda competência e evoca empatia do público, do mesmo modo que o livro o faz. Ainda há Dustin Hoffman, interpretando Giuseppe Baldini, perfumista mestre de Grenouille, e Alan Rickman, no papel de Antoine Richis. A voz do narrador – que é um ótimo recurso para introduzir o espectador à história, uma vez que o ato de narrar remete a tempos anteriores – é de John Hurt.

A versão de Tykwer transmite muito bem o sentimento do enredo original. Com atuações belíssimas, desperta compaixão pelo protagonista; com a fotografia poetiza as imagens de forma semelhante ao que o autor faz com as palavras; e com sequências de cortes bruscos e rápidos movimentos de câmera, leva o espectador a percorrer o ambiente juntamente com o perspicaz instinto olfativo de Grenouille. Esse último recurso é utilizado para mostrar o nascimento de Jean-Baptiste e permite um belíssimo jogo entre a vinda do protagonista e a podridão e decadência das feiras – e da sociedade – naquela época. Parece ser essa sujeira intragável que desperta o primeiro choro do assassino. Sabiamente, o longa-metragem ajusta as cores conforme a sensação de odor que o ambiente deve transmitir. Nas cenas que descrevem as ruas de Paris prevalecem os tons escuros, contrastando com o ambiente interno das perfumarias, com cenário vermelho e dourado, representando a sensualidade e opulência das classes superiores.

A surpresa maior fica por conta de um desfecho surpreendente, que não poderia ser mais simbólico para o protagonista. Ambas as obras são dotadas de delicadeza e sensibilidade, de excelente ritmo de narrativa, envolvendo leitores e espectadores o tempo todo. Romanticamente, filme e livro despedem-se através do narrador de forma poética e inesperada; um verdadeiro grand finale.

Coluna Livros em Cena, de Laura Ammann

O suicídio, a arte e os escritores

O suicídio, a arte e os escritores

Apertado entre o fim da infância e o começo da adolescência nasceu meu fascínio pelo suicídio. Começou quando, escrevendo meu primeiro romance, aos 13 anos, senti que meu protagonista deveria romper a própria vida no átrio de um colégio. O livro foi lido em algumas salas, provocou espanto em alguns, interesse em outros, mais pela trama do que pelas tragédias narradas. Então algum deus da escrita bateu sua baqueta num xilofone e eu soube que seria escritor, que na escrita havia esse lugar remoto e profundo onde eu me encontraria por completo.

Quando se acreditava que a arte era uma espécie de desequilíbrio mental, artistas suicidas e a própria arte foram estigmatizados. Mas nenhuma patologia mental ficou restrita aos artistas, por isso só sabemos que cometeram suicídio porque deixaram, através de suas obras, um legado na sociedade e na história cultural de suas respectivas áreas. Como qualquer ser humano, o artista sofre – talvez este sofrimento seja o responsável por seu fazer artístico.

Meu fascínio pelo suicídio é romântico, tem relação com um outro fascínio pela morte em si, esse mistério escuro que nos engole a vida numa colherada. Foi intensificado e melhor compreendido quando conheci a história de Virginia Woolf. A escritora inglesa de Mrs. Dalloway tornou-se minha preferida não só por seus belíssimos romances, mas por sua vida trincada, seus surtos maníaco-depressivos, a tristeza misturada à alegria em suas cartas. Virginia, que lutou com inquietas vozes por quase 50 anos, cuja persistência não a deixava mais trabalhar, escreveu uma carta de despedida para o marido Leonard Woolf, outra para a irmã Vanessa Bell, e aos 59 anos de idade afogou-se nas ferozes águas do rio Ouse.

Outros famosos escritores decidiram pelo rompimento da própria vida, ou por desespero, ou por cansaço, ou pela simples desistência de tentar. Conhecida por seus poemas e diários, mas também uma incrível escritora de prosa, aos 30 anos, Sylvia Plath colocou a cabeça dentro de um forno ligado e morreu intoxicada por monóxido de carbono, mesma causa da morte de Anne Sexton, escritora estadunidense e ganhadora do prêmio Pulitzer de poesia, que aos 45 anos trancou-se na garagem de sua casa com o carro ligado. Ernest Hemingway, escritor norte-americano, conhecido pelos romances Por Quem os Sinos Dobram e O Velho e o Mar, com o qual ganhou o Pulitzer, acabou com seus muitos problemas de saúde disparando um tiro de espingarda em si mesmo. Um dos mais conhecidos escritores portugueses, Camilo Castelo Branco também decidiu pelo próprio fim. Ao descobrir uma progressiva cegueira causada por sífilis, não suportou a ideia de não poder trabalhar e atirou contra a própria têmpora, morrendo aos 65 anos. Ainda em Portugal, a poeta Florbela Espanca, diagnosticada com edema pulmonar, ingeriu uma alta dose de barbitúricos e morreu aos 36 anos, no dia de seu aniversário. No Brasil, Pedro Nava, autor de Baú de Ossos e mais seis romances memorialistas, seguiu o fim de Castelo Branco e Hemingway, disparando um tiro contra a cabeça aos 80 anos, no Rio de Janeiro.

E quantos cometeram suicídio antes mesmo de derramar suas dores na literatura?

Coluna Autor sobre Autor, de Alex Sens

A Lição Aproveitada – Modernismo e Cinema em Mário de Andrade

Fonte: ICnews | Isabel Furini

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Lição Aproveitada - Modernismo e Cinema em Mário de AndradeQuem gosta de cinema não só de assistir a filmes, mas de entender o fascínio que ele exerce sobre algumas cabeças brilhantes, como no caso de Mário de Andrade, vai deleitar-se com a leitura de A Lição Aproveitada, (Ateliê, 352 p., 2011), especialmente estudantes e profissionais das áreas de Letras, Cinema e Artes em geral, que desejem entender o início do cinema no Brasil e a influência que exerceu sobre a literatura. João Manuel dos Santos Cunha, professor na Faculdade de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas, doutor em Literatura Comparada (UFRGS), pós-doutorado em Literatura e Cinema (Sorbonne-Nouvelle, Paris III), realizou uma longa pesquisa que revela o impacto que a narratologia cinematográfica exerceu sobre Mario de Andrade e seus contemporâneos. Mário de Andrade escreveu na revista Klaxon (N. 1, p. 2, maio de 1922): “A cinematografia é a criação artística mais representativa de nossa época. É preciso observar-lhe a lição.”

João Manuel dos Santos Cunha fez uma densa pesquisa e conseguiu organizá-la de maneira que a linguagem e a didática ficaram muito claras e agradáveis para o leitor. Ele segue os passos de Mário de Andrade e mostra também o caminho do cinema desde o seu início. É interessante conhecer a visão que Mário de Andrade foi desenvolvendo numa época em que o cinema era só visual, sem som e arte muda.

No começo dos anos trinta, iniciou-se o cinema falado. A genialidade de Mário de Andrade permitiu-lhe ver a potencialidade da voz narrativa cinematográfica, considerou-a “arte infante”, pois ele entendeu que essa arte se desenvolveria com o tempo.

Em 1915, O Nascimento de uma Nação, (The Birth of a Nation, Griffith, USA, 1915), coloca em cena um personagem que se converteria em símbolo do cinema. Esse personagem é Carlitos, de Charles Chaplin. Esse personagem foi considerado peça chave para a cinematografia avançar como arte narrativa.

Após o impacto da Semana da Arte de 1922, é lançada a revista Klaxon, para refletir sobre arte. Andrade tinha a capacidade de refletir sobre as manifestações culturais de sua época. Entre os modernistas, ele se destaca na produção de crítica cinematográfica, numa época em que essa crítica estava nascendo.

“Como intelectual lúcido que busca refletir sobre as manifestações da cultura de seu tempo, Mário vai abordar o cinema como crítico, a partir de sua experiência como espectador constante nas salas de cinema e como teórico da arte moderna, utilizando o cinema como um referencial, ‘a criação mais representativa’ de sua época.”

O professor João Manuel dos Santos Cunha afirma que aprender uma lição não é repeti-la, mas recriá-la. Carlitos foi um mestre do cinema, e aqueles que o admiravam, como Mário de Andrade, entenderam e recriaram a visão narratologica desse personagem. Mário não era favorável à copia, aos artifícios, mas procurava a vida, o ser do personagem. Para ele, romance e cinema tinham suas próprias vozes.

O autor revela-nos um Mário de Andrade muito humano, um homem com visão de futuro, que entendeu a capacidade do cinema de contar histórias. E esse é também o objetivo do romance, contar uma história, mas romance e cinema têm linguagens, técnicas e meios diferentes.

Mario de Andrade argumentou contra o fato de forçar a “intenção da modernidade em detrimento da observação da realidade”. E a literatura, o cinema, a pintura e a escultura exigem observação do mundo, pois falam da realidade humana.

O livro A Lição Aproveitada leva-nos pelo mundo da literatura e do cinema e ajuda-nos a conhecer melhor a visão de Mário de Andrade. Vale a pena conferir.

Eduardo Miranda respira James Joyce em Dublin

Em entrevista ao Blog da Ateliê, o tradutor, músico e poeta falou da relação de “amor e ódio” entre Joyce e Dublin. Eduardo Miranda chegou à final do Concurso de Tradução Bloomsday 2011 e publicou sua tradução na revista eletrônica TUDA.

Como foi seu primeiro “encontro” com a obra de James Joyce?

Joyce me chegou primeiro através de Ulisses, ainda muito jovem – praticamente ilegível para mim na época. Depois fui cronologicamente retrocedendo: Retrato do Artista Quando Jovem, Dublinenses, e depois a poesia… mas foi em Dublin que tive a oportunidade de me envolver mais com a literatura e a cultura irlandesa – inclusive com a língua irlandesa – e consequentemente com James Joyce. Foi aqui em Dublin, durante a comemoração dos 100 anos de Ulisses,  que pude percorrer o caminho que Leopold Bloom percorreu, no mesmo passo que o livro.

Fale um pouco sobre a obra e vida de James Joyce, segundo a sua experiência.

Na verdade foi depois da minha mudança para Dublin por motivos de trabalho que vim a me interessar mais pela obra de Joyce – e tudo em Joyce é Dublin! E entender essa relação de amor e ódio foi um desafio… Joyce deixou claro em vida que não gostava de Dublin. Stephen Joyce, neto e curador da obra de Joyce, faz questão de afirmar que seu avô não gostava da cidade. Tampouco ele simpatiza com Dublin, e desaprova toda tentativa de citar a obra do avô, seja para turismo, nomeação de monumentos, ou mesmo comemorações. O único lugar onde é permitido citar a obra de Joyce é no James Joyce Centre, durante as comemorações do Bloomsday, festival que acontece todo dia 16 de Junho e que comemora as aventuras de Bloom.

Como é traduzir James Joyce?

Primeiramente acho que todos os que se submeteram ao desafio de traduzir o Finnegans Wake – e não só os finalistas – já são heróis pela própria ousadia. Para mim foi uma tarefa trabalhosa, tanto que consumiu quase todas as minhas horas livres de uma semana inteira! Mas ao mesmo tempo foi excitante e divertida… uma aventura e tanto! E o fato de morar em Dublin e de ter um certo conhecimento da língua irlandesa – mesmo que parco –  fez com que eu me sentisse, de certa maneira, mais próximo dos contextos joyceanos, e acho que acabou ajudando um pouco a transposicão multi-dimensionais do texto… além, é claro, de um pouco de intuição e muita poesia!

Fale um pouco de você e do seu trabalho.

Não sei se posso chamar de trabalho, no sentido convencional da palavra. É mais como um hobby, só que levado muito à sério… extremamente! Mas o tempo é que não ajuda muito. Como tenho o meu trabalho na área de Tecnologia da Informação, acabo dedicando apenas o tempo que sobra às outras atividades. Trabalho e família vêm primeiro e, às vezes, o que sobra não é muito. Tento ser constante na TUDA, uma e-zine de poesia, literatura e arte que publico mensalmente, já há 3 anos. É lá que publico minhas traduções. Minhas poesias, meus contos e outros textos podem ser acessados à partir de um “portal” que mantenho, o edotm.info. Já na música, tenho um projeto experimental e multi-instrumental, à distância, chamado The Virtual EM3, e uma banda real, o Wellfish. Conforme o tempo permite, vou “trabalhando”….

Eduardo Miranda

Uma Arqueologia da Memória Social – Autobiografia de um Moleque de Fábrica

Uma Arqueologia da Memória Social, de José de Souza MartinsIncomum entre os profissionais das ciências humanas, autor aventura-se em autobiografia interpretativa, em uma história marcada por episódios com momentos de ruptura no destino e estranhamentos propícios à descrição e à interpretação sociológica

“A busca parecia ter chegado ao fim naquela manhã de 1976. Ao morrer, meu pai, um homem do século XIX, deixara aos filhos pequenos um legado de enigmas e silêncios, o desencontro de sobrenomes, distanciamentos entre os membros da família, ainda que próximos pela vizinhança e pelos ritos para fingir proximidade, como o compadrio, onde a proximidade estava comprometida desde o começo pelas adversidades que o tornaram necessário. Coisas que crianças estranham e que se tornam os mistérios a desvendar, as perguntas a responder, as impertinências a incomodar. Naquela manhã tudo parecia, finalmente, claro. Parecia, mas não era. Aqueles enigmas eram apenas os componentes de incertezas que constituíam o extenso terreno em que nascem e crescem os sem história, os que nascem para servir e trabalhar. Aqueles cujo destino ganha sentido na trama de acasos que só se articulam num todo no fim da trajetória, no fim da vida, na história que faz dos simples mais objeto do que sujeitos.” Assim, José de Souza Martins inicia o “prólogo breve” de Uma Arqueologia da Memória Social, apresenta o seu livro, cria grande curiosidade pela história e anuncia como será sua autobiografia interpretativa.
Uma Arqueologia da Memória Social mostra uma trajetória pessoal de adversidades e superações, expondo o Brasil pela margem de dentro de seus dilemas, dias de blecaute e racionamento da Segunda Guerra Mundial, a morte de Getúlio Vargas, a greve dos 400 mil, em 1957, a violência doméstica resultante do embate entre a ordem rústica que se desagregava e o urbano anômico que se impunha. Com seu olhar microscópico e cotidiano, José de Souza Martins conta sua infância e adolescência, na roça e na fábrica, traçando o retrato de uma era decisiva no advento da modernidade no Brasil: a era Vargas. Sua história é um convite à iniciação nas ciências humanas. Um jeito diferente de conhecer o que elas têm a dizer sobre o homem comum sem desconhecer-lhe o imaginário que dá sentido às incertezas do viver sem rumo.
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José de Souza Martins é sociólogo e Professor Titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, onde se tornou Professor Emérito em 2088. Foi professor visitante da Universidade da Flórida (EUA) e da Universidade de Lisboa. Foi o terceiro brasileiro eleito para a Cátedra Simón Bolivar da Universidade de Cambridge (Inglaterra), em 1993/94, e Fellow de Trinity Hall. Foi membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão (1996-2007). Prêmio “Érico Vanucchi Mendes” – 1993, do CNPq, pelo conjunto de sua obra. Prêmio “Florestan Fernandes” – 2007, da Sociedade Brasileira de Sociologia.
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Ficha Técnica
Título: Uma Arqueologia da Memória Social – Autobiografia de um Moleque de Fábrica
Autor: José de Souza Martins
ISBN: 978-85-7480-555-9
Formato: 15,5 x 22,5 cm
Páginas: 464
Preço: R$60,00

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A escrita de luz na tela em Lavoura Arcaica

Filme Lavoura Arcaica do romance de Raduan Nassar

Há diferenças significativas entre as transições de tempo e espaço em um livro e em um filme. Lavoura arcaica (1975), romance de Raduan Nassar, é uma prosa poética que flui de forma assombrosa. Com efeito, é possível que apenas uma palavra sirva de ponte entre tempos longínquos – lugares distintos.

A narrativa, de atmosfera trágica, consiste na volta de um filho para casa, onde houve uma relação incestuosa com uma das irmãs. André, o narrador-personagem, costura os estilhaços que assolaram sua família em texto. É o que ele também realiza, dessa vez nas condições de narrador e personagem do filme homônimo (2001, dir. L. F. Carvalho), ao voltar o olhar àquilo que viveu e costurar os flashes de memória em um fluxo mais ou menos contínuo.

Ao cortar e costurar as cenas na montagem, o cineasta Luiz Fernando Carvalho o faz identificado com o olhar do protagonista da trama. Porque, no texto de Raduan Nassar, o narrador-personagem assume a seguinte condição: ao mesmo tempo em que rememora o drama, ele também o contempla, digamos assim, de fora. André busca, por meio do olhar, constituir-se enquanto sujeito.

Olhar e discurso se fundem em sua trajetória. É a posição privilegiada do narrador que lhe permite montar as sequências de imagens e, ao mesmo tempo, são essas imagens que disparam a sua narração. André reconstrói a sua história ao mesmo tempo que dirige o olhar àquilo que viveu.

“O eu futuro se ilumina num eu passado”, eis o “movimento instantâneo e incessante” chamado presente, diz Jean Epstein. E é só no cinema que ele pode ser assim representado, pois, como nos lembra Merleau-Ponty, é a sucessão de imagens que cria a nova realidade.

Em Lavoura arcaica, a reciprocidade entre o discurso e o olhar contemplativo parece ser a correspondência, no filme, para o fato de o protagonista, ao transitar de uma margem à outra do romance, confundir-se com essas margens. Nestas, trágico e lírico se fundem; cada palavra é densamente carregada de sentidos, e André conta a história, a despeito do trágico desfecho, ou por causa dele, muito saudoso. Sua trajetória é a própria passagem do tempo: a passagem do tempo é a sua trajetória.

Irrecuperável e imprescindível, o tempo pesa sobre André com toda a sua intensidade. O exercício de composição da narrativa vai implicar que ele reviva, ou melhor, viva pela primeira vez de novo a sua história. Em última instância, os estilhaços dolorosos de que é feito Lavoura arcaica são os mesmos que, ao constituírem o narrador-personagem, constituem-se também por ele. A verdadeira lavoura, então, é o campo de batalha no qual digladiam pai e filho, o velho e o novo, livro e filme.

Fecundar essa lavoura é empreender ressignificações: lançar-se de volta ao porvir. A realização amanhã daquilo que (não) houve ontem. Mais ou menos como os contornos de uma fotografia, sempre a revelar com precisão onde estávamos, sem contudo jamais dizer onde estamos. Ou mesmo uma sucessão delas, em 24 quadros por segundo, que no melhor dos casos dá conta de um movimento sempre fugidio.

Colunista de Cinema e Literatura Renato Tardivo

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