Daily Archives: 04/08/2011

Conheça este louco por Joyce e sua tradução vencedora do Concurso Bloomsday

Adriano Scandolara traduziu James Joyce e venceu o Concurso de Tradução Bloomsday

Apresento-lhes Adriano Scandolara, com sua tradução do primeiro capítulo de Finnegans Wake. Ele encarou traduzir James Joyce e venceu o Concurso de Tradução Bloomsday! Veja o que ele disse em entrevista ao Blog:

Como foi seu primeiro “encontro” com a obra de James Joyce?

Foi ainda na graduação do curso de Letras. Lemos Dublinenses, e, como qualquer um, fiquei besta com o final de “Os Mortos”, toda aquela coisa da epifania e a descrição da cena. Coisa brutal mesmo. Aí foi a progressão natural de partir para O Retrato do Artista Quando Jovem e, depois, Ulisses. O mais chocante foi descobrir que a experiência era mais fácil, para mim, lendo no original do que na tradução do Houaiss – com todo o respeito, claro, afinal de contas, o que ele fez na época está longe de ser para qualquer um. Mas, ainda assim, não vou dizer que é fácil. Não é, mas também não é sinal de que a leitura de Joyce, ou de qualquer outro romancista tido como difícil, seja só para quem é muuuuito inteligente ou esse tipo de coisa. Eu confesso que não entendi muita coisa, mas também seria muita falta de humildade ler somente as coisas que eu for capaz de entender “plenamente”. E parece que ainda há muito desse estigma em Joyce – estigma de autor cult, lido só por gente de óculos de aro grosso que faz pose de intelectual, quando, na verdade, boa parte do Ulisses é piada escatológica – e seria bom se fôssemos capazes de desfazê-lo.

Fale um pouco sobre a obra e vida de James Joyce, segundo a sua experiência.

Pois é, eu não sei muito o que dizer do assunto (especialmente sobre a biografia insana de Joyce, que seria duro de resumir… e a Wikipedia já o fez melhor do que eu poderia fazer aqui), mas sei que as duas coisas, vida e obra, em Joyce, são muito interligadas. É óbvio que as duas coisas se cruzam sempre, em variados graus – vide as relações entre Baudelaire e Paris, por exemplo, ou Allen Guinsburg e toda a cena beat – mas parece que é ainda mais forte a ligação biográfica entre Joyce e seus protagonistas Stephen Dedalus e Leopold Bloom, e, ainda mais, entre Joyce e a Irlanda.

Como é traduzir James Joyce?

Difícil, mas divertido (divertícil, pra ser um joyceano pedante). Digo, não sei o restante da obra de Joyce (imagino que o Ulisses, por exemplo, seja mais difícil e trabalhoso do que divertido), mas o Finnegans Wake é algo tão lúdico que a tradução, para mim, vira menos um ato de erudição e adequação a formas, normas ou outros tipos de expectativas, quanto me parece um ato de associação, algo livre, de conceitos, ideias, imagens e sons. O FW mesmo parece que encoraja isso… aí, na hora de traduzir, eu acabei me orientando menos pelo tanto de sentidos a serem enfiados no texto do que pelo ritmo. É óbvio que eles são importantes também – vide as referências bíblicas nos parágrafos segundo e quinto, ou as referências bélicas no quarto, que não devem ser descartadas pelo tradutor – mas eu não me recrimino de perder alguma referência mais obscura se for para deixar o texto com uma sonoridade melhor. Joyce, apesar de romancista, acredito que se aproxima muito da poesia, no FW, e o resultado é um texto que soa especialmente bonito quando lido, e seria uma pena perder isso na tradução.

Fale um pouco de você e do seu trabalho.

Ah, bem, eu ando trabalhando como tradutor freelance, geralmente com não-literatura, como tradução para o jornal (Gazeta do Povo) ou textos técnicos, mas tenho prazer mesmo em traduzir literatura, especialmente poesia. Tenho também uns contos traduzidos para a Revista Arte & Letra, mas o que eu traduzo de poemas avulsos geralmente posto no meu blogue só (leitorhipocrita.blogspot.com). Quando me formei em Letras pela UFPR, fiz a monografia traduzindo uma pequena antologia de Shelley – que coincidiu justamente com o lançamento pela Ateliê também de um volume de Shelley traduzido pelo Milton e pelo Marsicano… bem, pelo menos, os poemas escolhidos foram diferentes – e agora, no mestrado, estou dando continuidade ao trabalho com um poema mais longo de Shelley (2.600 versos), que é o Prometheus Unbound. Também recentemente traduzimos, eu e mais alguns colegas e professores da UFPR, o Paradise Regained de Milton, a continuação do Paradise Lost, e estamos procurando editoras interessadas em publicá-lo.

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Adriano Scandolara

Blog: leitorhipocrita.blogspot.com

Clique para ler a tradução ganhadora do concurso

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