Monthly Archives: agosto 2011

O Altar & o Trono ganha prêmio da ABL

O Altar & o Trono, Ivan Teixeira

O Altar & o Trono: Dinâmica do Poder em O Alienista (Ateliê/Unicamp), de Ivan Teixeira, é o ganhador do Prêmio Senador José Ermírio de Moraes de 2011. Outorgado anualmente pela Academia Brasileira de Letras e pelo Grupo Votorantim, o prêmio destina-se a “autor brasileiro por obra de qualquer gênero que traga efetiva contribuição à cultura brasileira”. Seu valor este ano gira em torno de 80 mil reais.

Em anos anteriores, ganharam o prêmio: Roberto Campos, Décio de Almeida Prado, Evaldo Cabral, Luiz Felipe de Alencastro, José Mário Pereira e Walnice Nogueira Galvão.

Por meio de minuciosa análise de O Alienista, O Altar & o Trono investiga as relações da ficção de Machado de Assis com o discurso do jornalismo, editoração, política, ciência e religião no declínio do Segundo Reinado. O ensaio resultou de pesquisa financiada pela University of Texas em Austin, onde o autor lecionou Literatura Brasileira como Full Professor por três anos.

As mentes ultraviolentas de Burgess e Kubrick

Filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), de Stanley Kubrick

O filme Laranja Mecânica é um dos mais influentes do currículo do diretor Stanley Kubrick. Adaptado da obra homônima, de Anthony Burgess, o filme de 1971 traz Malcolm McDowell, com 28 anos, como protagonista em uma atuação brilhante. Ele interpreta Alex, personagem delinquente que causa repulsa por escandalizar a Inglaterra futurista e estranhamento por falar nadsat – dialeto criado por Burgess baseado no russo, inglês e cockney. O nome original, em inglês, A Clockwork Orange, deriva da expressão cockney “as queer as a clockwork Orange”. A palavra queer, usada para designar homossexuais, é também sinônimo de estranho.

Anthony Burgess estreou como escritor aos 39 anos e tem, entre suas obras, ficção, não ficção, peças de teatro, biografias e uma introdução à linguagem de James Joyce. Laranja Mecânica, seu décimo oitavo livro, foi publicado na Inglaterra em 1962, época em que o autor esteve inclinado a escrever mais do que o habitual em razão de se preocupar com o bem estar da esposa após sua morte. Ele recebera, em 1960, a notícia de que havia pouco tempo de vida em razão de um tumor cerebral. O diagnóstico era de somente um ano restante. Neste ano, o autor escreve 5 livros e meio. O “meio livro” era Laranja Mecânica. Fez-se erronia a previsão, Burgess termina a obra e vive até 1993.

Tanto livro quanto filme são ambientados em uma Inglaterra futura, onde os níveis de violência alcançam o intolerável, sendo o governo igualmente desumano em suas medidas de repressão. A elaboração do vocabulário nadsat, falado por Alex e seus amigos, é parte do caráter científico-ficcional da obra. Algumas edições vêm acompanhadas de glossário, algo que o autor não aprovava. Segundo Burgess, faz-se desnecessário seu uso para a compreensão da obra. O objetivo era causar estranhamento. De fato, as incógnitas literárias se transformam em um recurso interessante que acentua a violência já existente. Provocam a mesma sensação que cenas de “violência velada” em filmes. Vem-me à mente um exemplo: em Cães de Aluguel, dirigido por Quentin Tarantino, há a cena em que ocorre o famoso corte de orelha. É mostrado ao espectador o início do movimento, que dá a ele a dica do que irá se passar, criando um ambiente de tensão. A câmera então se distancia do desafortunado e do torturador e o espectador fica às cegas – com a câmera focada na parede – imaginando o que se passa. Por fim, a sonoplastia se encarrega de provocar em nós reações que só o cinema pode despertar. O grande elemento que torna essa cena clássica é essa “violência escondida”, que deixa metade do trabalho à imaginação do espectador e, consequentemente, ao seu repertório pessoal, que aumenta o seu grau de envolvimento com a obra.

Paradoxalmente, esse distanciamento da violência é o que a torna mais real. É o que difere um elegante filme violento de um simples filme de ação com sangue. Na literatura a imagem não é trabalhada da mesma forma; está não só suscetível à imaginação do leitor, como depende dela. E é exatamente esse recurso que Burgess intensifica com o uso dos neologismos.

No filme de Kubrick, assim como na cena de Tarantino usada como exemplo, a música é importante intensificador da estética da violência. Cena clássica aquela em que Alex agride um senhor ao mesmo tempo em que canta Singing in the Rain. As belíssimas músicas de Ludwig Van Beethoven possuem um papel de peso junto à mente ultraviolenta de Alex. Essa característica musical do personagem é um dos aspectos mais bem trabalhados na tradução do livro ao filme. Neste, é impressionante como a violência parece ser algo comum e acessível. A facilidade com que os delinquentes em questão praticam atos violentos, enquanto os espectadores – esperamos – se sentem apreensivos ao ver as cenas, é o elemento chave durante o filme. A discussão aqui, trazida do livro, é o ponto máximo em que a violência pode chegar.

O filme foi fortemente criticado pelo caráter de extrema violência e, a pedido do diretor, irritado com as críticas, foi retirado de veiculação na Inglaterra. Ainda foi proibido em diversos países e, a respeito disso, Burgess declarou “mais vale optar pela violência do que não optar por nada”.

A adaptação de Kubrick se baseia na edição americana do livro Laranja Mecânica, que contém o glossário – a contragosto do autor – e tem cortado o último capítulo. O motivo alegado foram “razões conceituais”; uma vez que o capítulo em questão é mais otimista em relação ao restante da obra. Nas edições inglesas e nas traduções para outros idiomas – inclusive nas brasileiras – o capítulo final é mantido. Essa adaptação ao filme não prejudicou o trabalho de transposição da obra, mas deixou-a mais interessante. O fim dúbio da versão cinematográfica imortaliza o olhar penetrante de Malcolm McDowell e questiona o tratamento que Alex recebe do governo. Seus métodos, sua eficácia, seu propósito. É possível recuperar mentes ultraviolentas em uma sociedade em que impera a ambição, o medo e a repressão?

Coluna Livros em Cena, de Laura Ammann

Lançamentos de O Silêncio Tange o Sino, da poeta Mariana Botelho

A poeta Mariana Botelho, autora de O Silêncio Tange o Sino, participará dos seguintes eventos nos próximos dias:

27 de agosto – Diálogos Poéticos – Casa das Rosas – SP (Programação)

30 de agosto – Terças Poéticas – Palácio das Artes – BH (Programação)

Terças Poéticas

Clique para ampliar o convite

3 de setembro – Lançamento com seção de autógrafos – Casa Guilherme de Almeida – SP (Programação)

Casa Guilherme de Almeida

Clique para ampliar o convite

.

Visite a Ateliê na Bienal do Livro Rio

Bienal do Livro 2011 Rio de Janeiro

Ateliê Editorial participa da Bienal do Livro 2011, que ocorre no Riocentro, entre os dias 1 e 11 de setembro

Considerada como um dos principais eventos literários do Brasil,  a Bienal deste ano homenageia a cultura brasileira e traz mais de 120 autores nacionais e 22 estrangeiros, que participarão de debates, sessões literárias e bate-papos com o público. (Programação da Bienal)

O evento colocará à disposição do público uma variedade de 950 expositores, entre eles, a Ateliê Editorial, que levará para a feira o melhor de seu catálogo. A Ateliê dividirá seu stand com a Editora Centauro, localizado na Rua P, do Pavilhão Verde. (Planta da Bienal)

Mais informações no site: www.bienaldolivro.com.br


Ateliê lança hoje o livro História do PT, de Lincoln Secco

Primeiro livro sobre a história do PT, o autor, que é professor da Universidade de São Paulo, se lança, neste volume, em um projeto corajoso
.
Livro História do PT, de Lincoln SeccoA Ateliê Editorial lança no próximo dia 17 de agosto, quarta-feira, das 18 às 21h, História do PT. Escrito por Lincoln Secco, livro é produto da convergência num só autor, do professor da USP, do pesquisador, do escritor, do bibliófilo, e finalmente da testemunha ocular da história. A Livraria João Alexandre Barbosa fica à avenida Prof. Luciano Gualberto, travessa J, 374, no prédio da antiga reitoria, na Cidade Universitária, em São Paulo.
.
Até hoje não existia uma história do PT. Nem mesmo oficial feita pelo próprio partido. É uma tarefa difícil para um historiador se manter equidistante das correntes internas do PT e do próprio ambiente político em que o partido agiu. É isto o que o historiador Lincoln Secco, professor da USP, conseguiu. Sem negar a vinculação que ele (e boa parte de sua geração) teve com o PT, sem exaltá-lo ou atacá-lo gratuitamente, o autor superou os inúmeros estudos de caso e teses acadêmicas sobre o período de formação do partido e ofereceu uma visão de conjunto da trajetória petista. Em vez de escrever um livro acadêmico ele preferiu uma história ensaística voltada aos que “trabalham” com o PT: jornalistas, cientistas políticos, pesquisadores estrangeiros e militantes políticos.
.
A obra visa também os jovens. Por isso, traz um mapa das tendências petistas ao longo de sua história, glossário do jargão interno e cronologia. O autor acompanha a trajetória petista desde a greve da Scania em 1978 até a vitória de Dilma. Mostra como o PT passou de um ator social radical a um integrante da ordem política estabelecida, cresceu eleitoralmente, perdeu seu ímpeto militante e se tornou uma
máquina de governo, atravessando escândalos de corrupção, perseguições de seus adversários e chegando a uma surpreendente hegemonia política no Brasil.
.
Lincoln Secco é paulistano, casado, tem 42 anos. Foi militante de base na periferia de São Paulo no PCB e no próprio PT nos anos 1980-1990. Ingressou na USP em 1987 como estudante de Letras e, depois, fez História (graduação, mestrado e doutorado). Desde 2003 é professor de História Contemporânea na USP. Foi finalista do prêmio Jabuti com o livro Caio Prado Junior: o sentido da Revolução (Boitempo). Agora se lança como autor da primeira história do PT pela editora Ateliê.

O Cheiro do Ralo: liberdade e circularidade

Filme: O Cheiro do Ralo

Liberdade

O filme O cheiro do ralo (2005) foi dirigido por Heitor Dhália a partir do livro homônimo de Lourenço Mutarelli – autor que, além da prosa, possui uma produção significativa de quadrinhos.

A narrativa fragmentada do livro de Mutarelli – cujos parágrafos não são lineares, as frases soltas são como versos, além de haver várias menções a outros livros e escritores – parece à espera de imagens, curiosamente já ali contidas.

A trama gira em torno da seguinte situação. Lourenço é dono de uma loja de objetos usados. Em uma sala de um prédio antigo, ele recebe diariamente pessoas que, precisadas de dinheiro, o procuram para vender suas coisas, desde uma prótese de perna a um faqueiro de prata – para citar apenas dois exemplos.

A sala, que cheira mal devido a um problema no encanamento do banheiro, é toda habitada por essas quinquilharias. Ocorre que as mercadorias têm história; são frutos de experiências humanas – às vezes os objetos são tão investidos de significados que se confundem com as próprias experiências.

Situados na sala, comprador (Lourenço) e vendedores trocam experiências por dinheiro. No mais das vezes, Lourenço age valendo-se do suposto poder que a situação lhe confere: ele pode ou não comprar os objetos. E os vendedores, via de regra, reagem ao contexto pautados pela escolha por vender suas coisas: diante da necessidade por dinheiro, escolhem vender os objetos.

Mas, em ambos os casos, é o exercício da liberdade – diríamos, amparados em Sartre – que em última instância pauta suas ações.

O próprio Lourenço cuida de convencer disso a personagem que mais se vende a ele: a despeito de que precisasse do dinheiro, tudo o que vende, ela o fez “porque quis”; ele nunca a obrigara a nada – no que finalmente ambos concordam.

Próteses

Os vínculos de Lourenço são frágeis. Ele é “amarelo”, sem cor, sem viço. Ao evitar a todo o tempo situações que envolvam afetos, Lourenço toma a direção de um mundo estéril. A história contida nos objetos que chegam à sua mesa parece assustá-lo.

Para se sentir confortável, então, ele transforma afetos em mercadoria. Fixado ao cheiro do ralo, chafurdado no fetiche da mercadoria, Lourenço mantém-se protegido dos afetos: o jogo de compra e venda ele sabe jogar.

À ânsia de sobrepujar o todo, contudo, as partes o revelam. Pelo avesso, é Lourenço que o cheiro do ralo e, por extensão, o próprio filme tratam de revelar. E sempre que esse outro lado aparece, o sarcasmo e a indiferença de Lourenço tomam a forma de precariedade.

Daí ele repetir tanto os dizeres das pessoas que aparecem na loja. Daí ele acumular todos aqueles objetos (que “têm história”) em sua sala. Daí, inclusive, a linguagem fragmentada da narrativa – naquilo que a aproxima dos quadrinhos. Daí as referências, por parte de Lourenço, a outros livros. Daí os flashes em cujas sequências Lourenço procura conferir sentido à sua história. Daí sua busca por construir o “pai Frankstein”.

É imbuído dessa busca que ele gasta uma fortuna pela réplica de um olho. Que passa a testemunhar as situações vividas pelo protagonista, passa a ser o olho de seu pai. Mais à frente, ele despende outra fortuna com a prótese de uma perna – a perna de seu pai.

Inferno

É nessa busca circular, do ralo ao ralo, que Lourenço paradoxalmente (não) se encontra: fugindo da própria sombra.

“O inferno é meu pai”, diz o protagonista. Impossível não lembrar da peça Entre quatro paredes, de Sartre, na qual uma das personagens profere a célebre frase: “O inferno são os outros”.

Os outros e suas histórias são tão ameaçadores que Lourenço os transforma em coisas. Seu gozo perverso, sem culpa, aponta para um descompromisso com a alteridade. É que, levando ao limite a premissa sartriana de que o inferno são os outros, ele não estabelece relações integradas com o mundo que o cerca.

Preso a essa parcialidade ameaçadora, Lourenço acaba, ao recusar o outro, por recusar o próprio eu. Fatalmente, a unidade fechada em si mesma é destruída: “ninguém mais entra, ninguém mais sai”.

O cheiro do ralo, filme dirigido por Heitor Dhália, recupera esses fragmentos, apresentados primeiro no livro de Mutarelli, e os monta em um filme de elevado impacto estético.

A circularidade do ralo, do olho, do tiro, é enfim ressignificada. Desvela-se uma multiplicidade de significados (já ali contidos).

.

Renato TardivoRenato Tardivo | Colunista de Cinema e Literatura

renatotardivo.blogspot.com

Twitter: @RenatoTardivo

.

Nova edição do DiaTipo reúne interessados por tipografia em Brasília

Dia Tipo
Com sua primeira edição realizada em São Paulo em 2008, o DiaTipo é um evento dedicado à tipografia. Trata-se da metodologia técnica e artística da produção gráfica, desde a criação de caracteres até a impressão e acabamento, envolvendo, portanto, design, comunicação visual e editoração. No dia 27 de agosto, o DiaTipo acontece pela primeira vez em Brasília na Faculdade de Tecnologia da UnB e será composto por palestras e debates entre tipógrafos, calígrafos, designers, pesquisadores, profissionais da área da comunicação visual e demais interessados no assunto.
.
A temática principal desta edição, dividida em design editorial e identidade visual, contará com oito palestrantes que trabalham em revistas, editoras e no mercado de comunicação com a criação de fontes corporativas e projetos gráficos. Entre eles estão Dino dos Santos, Elaine Ramos, Fabio Haag e Frederico Antunes. Também com patrocínio da Ateliê, o evento terá transmissão pela internet e as inscrições, tanto para ele quando para os workshops de produção de fontes digitais que acontecem nos três dias precedentes, podem ser realizadas no site http://www.tipocracia.com.br/diatipo/DF/index.html.
.
Alex Sens

..Alex Sens | Colunista de Cultura e Literatura

..Twitter: @alexsens

.

.

Conheça este louco por Joyce e sua tradução vencedora do Concurso Bloomsday

Adriano Scandolara traduziu James Joyce e venceu o Concurso de Tradução Bloomsday

Apresento-lhes Adriano Scandolara, com sua tradução do primeiro capítulo de Finnegans Wake. Ele encarou traduzir James Joyce e venceu o Concurso de Tradução Bloomsday! Veja o que ele disse em entrevista ao Blog:

Como foi seu primeiro “encontro” com a obra de James Joyce?

Foi ainda na graduação do curso de Letras. Lemos Dublinenses, e, como qualquer um, fiquei besta com o final de “Os Mortos”, toda aquela coisa da epifania e a descrição da cena. Coisa brutal mesmo. Aí foi a progressão natural de partir para O Retrato do Artista Quando Jovem e, depois, Ulisses. O mais chocante foi descobrir que a experiência era mais fácil, para mim, lendo no original do que na tradução do Houaiss – com todo o respeito, claro, afinal de contas, o que ele fez na época está longe de ser para qualquer um. Mas, ainda assim, não vou dizer que é fácil. Não é, mas também não é sinal de que a leitura de Joyce, ou de qualquer outro romancista tido como difícil, seja só para quem é muuuuito inteligente ou esse tipo de coisa. Eu confesso que não entendi muita coisa, mas também seria muita falta de humildade ler somente as coisas que eu for capaz de entender “plenamente”. E parece que ainda há muito desse estigma em Joyce – estigma de autor cult, lido só por gente de óculos de aro grosso que faz pose de intelectual, quando, na verdade, boa parte do Ulisses é piada escatológica – e seria bom se fôssemos capazes de desfazê-lo.

Fale um pouco sobre a obra e vida de James Joyce, segundo a sua experiência.

Pois é, eu não sei muito o que dizer do assunto (especialmente sobre a biografia insana de Joyce, que seria duro de resumir… e a Wikipedia já o fez melhor do que eu poderia fazer aqui), mas sei que as duas coisas, vida e obra, em Joyce, são muito interligadas. É óbvio que as duas coisas se cruzam sempre, em variados graus – vide as relações entre Baudelaire e Paris, por exemplo, ou Allen Guinsburg e toda a cena beat – mas parece que é ainda mais forte a ligação biográfica entre Joyce e seus protagonistas Stephen Dedalus e Leopold Bloom, e, ainda mais, entre Joyce e a Irlanda.

Como é traduzir James Joyce?

Difícil, mas divertido (divertícil, pra ser um joyceano pedante). Digo, não sei o restante da obra de Joyce (imagino que o Ulisses, por exemplo, seja mais difícil e trabalhoso do que divertido), mas o Finnegans Wake é algo tão lúdico que a tradução, para mim, vira menos um ato de erudição e adequação a formas, normas ou outros tipos de expectativas, quanto me parece um ato de associação, algo livre, de conceitos, ideias, imagens e sons. O FW mesmo parece que encoraja isso… aí, na hora de traduzir, eu acabei me orientando menos pelo tanto de sentidos a serem enfiados no texto do que pelo ritmo. É óbvio que eles são importantes também – vide as referências bíblicas nos parágrafos segundo e quinto, ou as referências bélicas no quarto, que não devem ser descartadas pelo tradutor – mas eu não me recrimino de perder alguma referência mais obscura se for para deixar o texto com uma sonoridade melhor. Joyce, apesar de romancista, acredito que se aproxima muito da poesia, no FW, e o resultado é um texto que soa especialmente bonito quando lido, e seria uma pena perder isso na tradução.

Fale um pouco de você e do seu trabalho.

Ah, bem, eu ando trabalhando como tradutor freelance, geralmente com não-literatura, como tradução para o jornal (Gazeta do Povo) ou textos técnicos, mas tenho prazer mesmo em traduzir literatura, especialmente poesia. Tenho também uns contos traduzidos para a Revista Arte & Letra, mas o que eu traduzo de poemas avulsos geralmente posto no meu blogue só (leitorhipocrita.blogspot.com). Quando me formei em Letras pela UFPR, fiz a monografia traduzindo uma pequena antologia de Shelley – que coincidiu justamente com o lançamento pela Ateliê também de um volume de Shelley traduzido pelo Milton e pelo Marsicano… bem, pelo menos, os poemas escolhidos foram diferentes – e agora, no mestrado, estou dando continuidade ao trabalho com um poema mais longo de Shelley (2.600 versos), que é o Prometheus Unbound. Também recentemente traduzimos, eu e mais alguns colegas e professores da UFPR, o Paradise Regained de Milton, a continuação do Paradise Lost, e estamos procurando editoras interessadas em publicá-lo.

.

Adriano Scandolara

Blog: leitorhipocrita.blogspot.com

Clique para ler a tradução ganhadora do concurso

.

.

O Menino do Pijama Listrado: a amizade de dois garotos que vivem os opostos na Segunda Guerra Mundial

Livro e filme O Menino do Pijama Listrado

John Boyne escreveu o rascunho de O Menino do Pijama Listrado, publicado em 2006, em dois dias e meio de pouco sono, segundo ele mesmo. O autor irlandês levou com a obra os prêmios People’s Choice Book of the Year e o Children’s Book of the Year, ambos de seu país natal. O Best-seller foi traduzido ao cinema em 2008, sob direção de Mark Herman, com uma escolha de elenco que vestiu com perfeição os personagens literários. A experiência cinematográfica agradou ao autor, que esteve presente nas gravações.

O enredo expõe a amizade de dois meninos que vivenciam os opostos da Segunda Guerra Mundial; um é filho de soldado e outro, um judeu. Com uma narração sutil, que nem uma vez menciona diretamente a guerra, John Boyne nos leva ao coração de Bruno, protagonista, doce jovem que encontra dificuldades em entender o contexto histórico em que está inserido. Infinitamente mais apaixonante no livro do que no filme, Bruno conquista o leitor a cada página com sua inocência, humor e infantilidade.

Personagem Bruno e sua mãeÉ com sofisticado humor que Bruno confronta seus pais a respeito da vida que lhe foi imposta, e com inigualável encanto que se aproxima de Shmuel, seu amigo de pijamas. Por vezes, o livro aproxima tanto o leitor do garoto, que apesar de ser narrado em terceira pessoa, engana por algumas páginas, dando a sensação de que o narrador é Bruno.

Além de um belíssimo enredo, o autor cria uma tensão a cada final de capítulo, que liga o leitor ao começo do capítulo seguinte. Boyne calmamente nos introduz à vida da família, nos insere na mentalidade de cada personagem e, muito veladamente, menciona o contexto nazista e apresenta as opiniões dos personagens em relação ao regime.

Em contrapartida ao velado regime do livro, o filme abre com os créditos sobre as cores da bandeira nazista, dilatando em seguida o plano para a bandeira completa. Isso não o faz merecedor de críticas, uma vez que lidamos com diferentes tipos de arte. O uso da cor, dos planos e movimentos de câmera, entre outros elementos, privilegia o cinema, que deve fazer uso deles. Mas somente um livro pode ser sutilmente intrigante; dizer muito e pouco simultaneamente.

O que caracteriza falha, no entanto, é o modo como o longa-metragem se faz infiel à literatura, com algumas mudanças significativas no enredo. Lamentavelmente, Bruno perde bastante da sua “graça” na transposição da obra. Sendo o personagem mais rico do livro, gera bastante expectativa para quem leu a obra antes.

De modo geral, os personagens foram linearizados e classificados em “bons” ou “maus”. O livro permite uma análise mais profunda dos personagens. Por vezes o tenente alemão Kotler pode ser até simpático, e a figura do tutor não se faz tão rigidamente.

A versão cinematográfica deixou de registrar a importância da amizade para ambos os meninos, bem como a diferença de amadurecimento que há entre os dois devido às diferentes experiências a que foram expostos. O laço criado entre os garotos no livro é mais forte; há mais compaixão e lealdade. Shmuel priva Bruno de algumas verdades, pois tem consciência do que está passando no campo de concentração, e sabe que Bruno não tem.

A força do filme está no elenco. As atuações dos pais de Bruno, interpretados por David Thewlis e Vera Farmiga, refletem bem o espírito do livro. Excelente é a atuação de Rupert Friend, no papel do Tenente Kotler, e, apesar de estar em segundo plano, é brilhante a forma como David Hayman emocionou com Pavel, o descascador de legumes. Todos os soldados aparecem com ímpar imponência, retratando fielmente a imagem de que eles gozavam na época.

O longa-metragem acabou sendo uma descrição mais forte, menos discreta quanto a violências e elementos mais perturbantes que caracterizam a guerra; contrapondo-se à doçura e sutileza do correspondente literário.

Pela primeira vez nesse blog, deixo escapar minha preferência pela literatura. Mas seja dito que O Menino do Pijama Listrado conquistará de qualquer forma. Até porque, o clímax, que é justamente o fim, foi mantido na adaptação. E como não sou estraga-prazeres, digo somente que achei genial.

Coluna Livros em Cena, de Laura Ammann

Leia mais sobre judeus e guerra:

Livros Relacionados:

Outra Guerra do Fim do Mundo
Osvaldo Coggiola
A Outra Guerra do Fim do Mundo
Dez Mitos sobre os Judeus
Maria Luiza Tucci Carneiro
Dez Mitos sobre os Judeus
 Memorial de um Herege
Samuel Reibscheid
 Memorial de um Herege Samuel