Monthly Archives: fevereiro 2011

H-Láxia: Exposição sobre Haroldo de Campos reúne poesia e tradução

por Alex Sens | @alexsens

Poeta, crítico e tradutor, criador e defensor do movimento concretista, Haroldo de Campos ganhou sua primeira exposição de 2011 no Itaú Cultural, estendida também para a Casa das Rosas. A “Ocupação Haroldo de Campos – H Láxia” é a oitava da mesma série promovida pelo instituto desde 2009, em cartaz em ambos os lugares com entrada franca até o dia 10 de abril.

A exposição apresenta o percurso de Haroldo ressaltando seu processo criativo enquanto poeta, tradutor e crítico. Enquanto que no Itaú Cultural as instalações se aprofundam nas criações e na relação com autores que ele traduziu, na Casa das Rosas está reunido todo o acervo doado por seus herdeiros à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Ali, sua trajetória poética é distribuída em cinco instalações, por meio de cartazes, poemas oralizados em músicas e informações de seus livros.

Da célebre mente de Haroldo de Campos, a Ateliê Editorial tem quatro livros publicados, sendo A Máquina do Mundo Repensada como autor; Teoria da Poesia Concreta – Textos Críticos e Manifestos como co-autor, junto do irmão Augusto de Campos e de Décio Pignatari; e outros dois, Escrito sobre Jade – Poesia Clássica Chinesa e Daquela Estrela à Outra, como tradutor. Dentre estes, A Máquina do Mundo Repensada e Escrito sobre Jade são seus grandes destaques.

No primeiro, Haroldo de Campos ultrapassou a mesmice da poesia contemporânea Livro A Máquina do Mundo Repensadacriando, mais do que outro livro-poema, um universo-poema sob a ótica da física moderna e da cosmologia. Em A quina do Mundo Repensada, ele colocou sua pena para questionar a origem do Universo e procurar desvendá-lo através de diálogos com outros grandes escritores e cientistas. O livro é dividido em três partes, totalizando 152 tercetos decassílabos: a primeira homenageia aqueles que discutiram a “máquina do mundo”, ou seja, uma metáfora para a visão de mundo que se pode ter, como Dante Alighieri, Carlos Drummond de Andrade e Camões; a segunda, num caráter mais físico, vai de Galileu, passando por Ptolomeu até Einstein; e finalmente na terceira, onde Haroldo guarda a chave que fechará (ou abrirá?) a porta de seu extenso poema existencialista, o Big Bang é descrito da mesma maneira explosiva de sua teoria cosmológica: com toda a poesia que nos é permitido sentir e imaginar, e aos olhos de Haroldo, viver pela primeira vez.

Livro Escrito Sobre JadeNo outro livro, Escrito sobre Jade, Haroldo apresenta uma coletânea da poesia clássica chinesa “reimaginada” por ele, um termo que preferia usar no lugar de “tradução”, uma vez que toda tradução é na verdade uma versão em outra língua mais próxima da original em seu significado, uma “transcriação”. O volume, reeditado, ampliado, com uma breve introdução e organização de Trajano Vieira, teve cuidado gráfico também revisto, em capa dura, que traz, lado a lado, os textos originais e as versões em português. São poemas do Shi-King, o “Livro das Odes”, recolhido depois de 600 a.C. por Confúcio; e também composições de autores como Han-Wu-Ti, Wang Wei, Tu Fu, Mao Tse-Tung e Li Po, considerado um dos maiores poetas da China. “A poesia clássica chinesa, escrita numa linguagem especialmente afeiçoada à arte do poema (um verdadeiro “idioleto poético”), toca de perto os ocidentais que nela se debruçam por sua concisão, pelo sentimento de inacabado, de sustentada surpresa, de aforismático vigor aliado à plasticidade visual da imagem”, resume Haroldo de Campos.

Hotsite do projeto: http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/

Resenha: Refluxos, de Edson Valente

Livro Refluxos, de Edson ValenteFonte: ICnews

por Isabel Furini

O autor publica seu primeiro livro de contos, Refluxos (Ateliê editorial, 2010, 80 páginas), porém não se trata de um iniciante, pois Valente já tem seu estilo bem definido. É um estilo moderno, com colocações sutis e comentários irônicos.

O leitor de contos clássicos sentirá falta de alguns elementos descritivos como detalhes do cenário, retratos de personagens e nomes que identifiquem esses personagens. Talvez Valente escolheu essa forma narrativa porque vivemos numa época de massificação, onde os nomes não diferenciam as pessoas. Os seres humanos se unem ou se separam por gostos e desgostos, por situações (algumas fortuitas), por parâmetros, ideologias, costumes, hábitos, enfim, o homem contemporâneo é talvez o mais solitário, o mais incompreendido, e, ao mesmo tempo, aparentemente o mais semelhante aos semelhantes – o efeito colateral da tão desejada igualdade. E esse olhar da condição humana pode ser percebido no livro.

A ironia, a monotonia, o cansaço, o “abacaxi” que aparece em qualquer situação, são focados pelo escritor. Edson Valente não está preocupado em descrever o espaço, mas em mostrar aspectos da vida das pessoas. Ele tampouco cria tipos, mas assinala características da forma de viver e de ser do homem contemporâneo e o transforma como o personagem do excelente conto Plano de previdência, um daqueles contos que se lê várias vezes, e em cada leitura é possível encontrar novos detalhes interessantes. Na história o homem se transforma em um ventríloquo mudo. Magnífico oximoro! Vejamos um fragmento de Plano de previdência: “E, em um certo dia, o ventríloquo ficou mudo. De tanto fingir distanciamento, perdeu o movimento. Confundiu- se, parou de dirigir e de interpretar. Não se esforçou nem mesmo antes de se firmar na série, ser aclamado pelo público e, assim, tornar-se imprescindível para os produtores.”

Muitos sentidos de Rosa

Fonte: O Globo | Prosa & Verso

Por Sandra Guardini T. Vasconcelos

Livro Cores de Rosa, de Adélia Bezerra de Meneses

Livro explora motivos e imagens recorrentes na obra do escritor mineiro

Em meio a uma fortuna crítica que se avoluma cada vez mais, eis que surge uma nova coletânea de ensaios que, transversalmente, percorrem a obra do grande escritor mineiro João Guimarães Rosa para sugerir novos ângulos de leitura, tendo como fio condutor alguns motivos recorrentes que atravessam os textos rosianos privilegiados por Adélia Bezerra de Meneses, em seu Cores de Rosa.

O feliz jogo de palavras do título tanto põe em evidência um conjunto de temas que, de fato, colorem a produção de um dos autores mais importantes do nosso século XX como propõe que a presença das cores tinge as narrativas com seu forte poder de sugestão, revestindo-as de uma carga simbólica que convida à decifração. E decifração é, sem dúvida, a tônica de cada um dos ensaios do livro, em que o leitor acompanha o paciente de trabalho empreendido pela autora de esclarecimento de passagens mais obscuras e de desvendamento das camadas de sentido que se sobrepõem e movimentam a prosa ficcional de Rosa, escritor conhecido pelo seu artesanato e pela utilização sistemática de uma gama enorme de recursos formais.

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