Os impasses da atual poesia brasileira

Por Alcir Pécora

Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2010/12/04/os-impasses-da-atual-poesia-brasileira-por-alcir-pecora-346484.asp

As obras Palavra e Rosto, de Fernando Paixão; Interior Via Satélite, de Marcos Siscar e A Estrela Fria, de José Almino são três lançamentos não triviais de poesia e de pensamento sobre a poesia. Cada um deles, além de se produzir como objeto de interesse por si mesmo, ajuda a entender certos impasses atuais do gênero no Brasil, a mapear a dificuldade do novo —, isto que é exigência e risco inerentes ao legado cultural que baliza toda criação.

Livro: Palavra e Rosto, de Fernando PaixãoE é justamente tendo o incômodo como horizonte que Paixão opta por tomar a poesia de fora. Cria breves quadros descritivos em prosa afetiva e evocativa, que emula o poético, sem a exigência de ser poesia. A ideia é “fixar impressões” de “situações vividas”, capturar a “realidade corpórea” que “se agrega às palavras”, ou, de outro modo, surpreender a imaginação poética ainda antes de as palavras se fixarem no “estado de texto”. Trata-se, portanto, de agir como se fosse possível obter um flagrante da poesia antes da poesia, como se só restasse à poesia existir antes da sua hora, mais como potência do que como ato.

Os objetos que dão margem às descrições são circunstanciais: a chuva vista da janela, fotos de Marte, um livro de natureza morta, rabiscos à caneta sobre versos mal pensados, uma reportagem sobre a vinda de Robert Frost ao Brasil, certa foto de Rilke, a visita a um poeta no hospital, o café tomado no balcão, a mãe sentada que suscita a expectativa de um verso de redenção do instante, a releitura irônica de um verso clássico, uma folha solta achada num livro comprado em sebo etc.

A enumeração é elucidativa tanto porque é virtualmente infinita, deixando claro que a poesia não faz restrição ao sítio aonde brota, como porque está limitada ao que se dispõe mais para a crônica do que para a poesia. Ou seja, tudo, mas também nada, não só contingente, mas ostensivamente desimportante. Ao anzol lírico, lançado fora do campo transcendental da poesia, só resta fisgar quinquilharia.

O exercício poético privilegiado por Paixão é o da écfrase, isto é, o de escrever como quem descreve uma pintura. Está atento às modulações que abstratizam a paisagem: jogos de sombras, volumes, equilíbrios, a sutil comunicação entre objetos, a “leveza da curva”, uma “inclinação sinuosa” (que em pequena parte é desejo; em grande parte, memória), tonalidades, fulgurações, “geografia de desvãos”. Por isso mesmo, paradoxalmente, o efeito preciso que logram as descrições não é visual, mas atmosférico: certo descompromisso escapista, sensual, mas sem perversão grave. Detém-se na “pele fina de melancolia”, forma que flui, conversa de linhas, movimentos em contraponto.

Descrita assim, porém, a atmosfera parece mais elegante e fria do que é. Há por vezes excesso kitsch de calor, que se estende do sentencioso (“Toda cicatriz em rosto de mulher suscita um poema”) ao erótico (“frenesi nos seios”; “receber o seu homem por entre as pernas”), até o francamente prolixo (“maneira furtiva de interromper o fluxo das palavras por um gosto equivalente a lhe correr na boca”).

Livro: Interior Via Satélite, de Marcos SiscarSiscar também avança no prosaísmo, mas de forma mais enigmática, como a declarar desde o início a dificuldade de a poesia suscitar empatia. Além de versos livres e brancos, usa sequências de frases separadas por ponto, sem maiúsculas, ou blocos discursivos sem pontuação, divididos em fraseados longos, o que lembra o “Galáxias”, de Haroldo de Campos. Quando os poemas admitem versos de medida tradicional, o corte espacial tende a ocultá-las, talvez em consonância ao desinteresse alegado pela “página bem escrita”.

Embora o livro seja variado, faltando-lhe seleção mais rigorosa, unifica-o a investigação das possibilidades de construção poética da “intimidade”. Esta nunca é direta, mas encenada por meio de duas “ficções”: a da origem e a do encontro amoroso. A primeira compreende as conotações de vida interiorana, provinciana; a segunda, de vida doméstica e também de vida íntima, embora sejam todas repassadas pela vida mental. Em ambas, Siscar busca assumir o pequeno, o “intempestivo”, a “palavra gasta”, desde que sem perder “estilo”, o que também se pode traduzir como uma aposta em que os objetos da poesia se revelem receptivos a uma forma inteligente, ensaística, bem treinada para propor seus pontos de suspensão e esvaziamento.

A natureza desse estilo leva a que as circunstâncias da dupla encenação sejam abstratas, como imagens desconstruídas, ensaiadas, deliberadamente desconexas, embora à primeira vista surja uma paisagem metafórica interiorana: “carroça na curva”, “árvore no peito”, “raízes nos pés”, “amor sob árvores”, música e velas na noite, e mesmo os “gestos simples” da amada de trazer um copo d’água, abraçar, declarar etc.

Uma estratégia poética importante de Siscar é o “ut pictura poiesis”, no qual a palavra se ajusta a um sistema semântico de aproximação e distanciamento. Siscar a traduz pela ideia de “telescopia”: o que olha à distância trazendo para perto, revelando a “sombra” da coisa, o “invisível” do visível, e o que afasta o que está próximo, gerando espaçamento, “panorama”. Em qualquer caso, jogando com a razão das escalas, a sua poesia se propõe sempre como poesia intelectual, ainda que indagando o doméstico.

Nem sempre o resultado é eficaz. Por vezes, parecem afetados, por vezes derramados nos clichês de profundidade ou de visceralidade: “arrancar a casca lamber a ferida”, “você gastou tudo como a vida”; “procurar as coisas pequenas da vida”, “eivado de ervas daninhas”, “tudo se regenera no riso do meu filho enquanto dorme”. Também não é imune ao erotismo kitsch: “com que minúcia nossas mãos/ refaziam os contornos do corpo”, “dentro da noite. nos amamos”, “sentirei sua intimidade/ por baixo da roupa a maciez e a ardência”, “suas fendas me recebem me exploram me sufocam”. É curioso, mas o erotismo realmente não funciona nesse tipo de abstracionismo afetivo.

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