Daniel Piza fala sobre Machado de Assis e Guimarães Rosa

(Por Daniel Piza/Estadão)

Em 2002 escrevi um ensaio na revista Cult fazendo paralelo entre os dois contos O Espelho de Machado de Assis e Guimarães Rosa, mostrando como “um tende mais ao antimetafísico, o outro ao metafísico”. Vejo agora que num seminário da Petrobras chamado Mutações, coordenado por Adauto Novaes, há a mesma abordagem, claro que sem crédito. Notei ainda, como num ensaio para a saudosa revista Entrelivros, que nossos dois maiores escritores são semelhantes em temas fundamentais, como essa questão da identidade difusa, da superação de dicotomias, com seu reflexo nos dilemas brasileiros. “Os dois são, em suma, estudiosos de contrastes, e os contrastes que eles estudam têm os matizes do Brasil: litoral x interior, civilização x índole, cartesianismo x carnavalização. E nenhum deles é partidário sobre essas questões.”

Livro Machado e Rosa – Leituras CríticasTambém acaba de sair um livro sobre o assunto, chamado Machado e Rosa – Leituras Críticas, organizado por Marli Fantini para a Ateliê Editorial. São ensaios acadêmicos, alguns muito interessantes, mas são raros os que abordam os dois autores ao mesmo tempo. Os capítulos se alternam, tratando ora de um, ora de outro, ou de aspectos comuns como as dificuldades de tradução, mas o encontro mesmo aparece apenas em Olhares e Espelhos, no qual, como sugere o título, se discute o conto do alferes que confunde o ser e a aparência. O breve texto de Susana Kampff Lages é o que se sai melhor.

Infelizmente, a ninguém ocorreu ir além; por exemplo, tratar da ambivalência sexual de personagens como Bentinho (incapaz de lidar com uma mulher que era mais mulher do que ele era homem) e Riobaldo (apaixonado por um jagunço que não sabia mulher). Os dois escritores, por sinal, foram injustiçados por críticos de renome quanto à sua capacidade de criar vidas, de construir personagens poderosos. Antonio Candido, um dos três maiores da nossa história, escreveu há muito tempo que Machado ficaria menos pela galeria de personagens do que pelos “esquemas narrativos”; e Wilson Martins disse que Riobaldo e Diadorim nem sequer chegavam a ser personagens de verdade. Mas eles e elas estão mais vivos que nunca em nosso imaginário, como mostram esses ensaios e, mais importante, sua força junto ao leitorado brasileiro e mundial.

Blog do Daniel Piza

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