Novo livro de Fernando Paixão extrai e injeta poesia nas frestas do dia-a-dia

(Por Marcos Pasche – Jornal Rascunho)


Era um convicto catador de poemas. Entregava-se aos acasos para poder colecionar detalhes ou cenas quaisquer, donde se depreendesse o sinal possível, espiralado, que permitia o estirar de uma frase natural. Ele, sempre atento na ponta dos olhos, recusava-se a emendar palavra com palavra em meio à limpeza higiênica das mesas poéticas; não queria a poesia remediada, de tato virtual, nem a fria plumagem da língua.

À maneira de T. S. Eliot, para quem o fim engendrava o início, o fragmento acima – extraído de O farejador, último texto de Palavra e rosto, de Fernando Paixão – funciona perfeitamente como preâmbulo do livro, visto concentrar o que se verifica ao longo de suas páginas: o exercício do olhar, o qual, nivelado ao dos pintores impressionistas, colhe e lança seiva poética aos buracos das coisas em geral, sejam elas cotidianas, nas quais se topam corriqueiramente, sejam elas insólitas, as quais topam em nosso pensamento nos raros momentos em que a ele cedemos espaço.

Da mesma forma como ocorre em muitas exposições de pintura atuais – em que se exibem não necessariamente as obras acabadas, e sim os estudos que dão gênese a elas – Palavra e rosto é um livro-ensaio, pois os textos que o constituem são comentários a respeito de situações que geraram poemas, ou a respeito dos próprios poemas gerados, como se o autor estivesse inclinado a vasculhar, com todas as suas sensações, o misterioso sopro que gera a bolha de sabão e que a mantém suspensa no ar. No entanto, apesar da intenção registradora, a ação, por ser poética, é sempre criadora, como o autor esclarece em Álbum, nota explicativa que abre o volume:

As páginas aqui reunidas foram escritas ao sabor das ocasiões, sem plano de vôo. Inicialmente, o intuito era fixar impressões em torno de algumas situações vividas ou flagrantes percebidos. Mas logo a criação seguiu atalhos próprios, aproximando-se do tom poético e sucumbindo ao desejo de registrar momentos e comentários ligados ao campo da poesia.

Pintor de poemas
E é como pintor de poemas em prosa que o poeta luso-brasileiro põe-se a observar o mundo e seus fenômenos, reportando a nós a matéria observada. Mas, diferentemente do que se poderia supor, a palavra de Paixão não funciona como um rosto objetivo das coisas, seu discurso não é propriamente um relato nem é tomado por referencialidade objetiva: o desafio percorrido (e bem alcançado) é o de dar a ver ao leitor as sensações congregadas no olhar do poeta: “Sob o céu de Bolonha palpitam telhados formando uma pele serena e porosa. Há um jogo de sombras entre as paredes e as janelas, qual volumes suspensos, pontuam o equilíbrio das moradas. A impressão geral pode ser notada como um instantâneo mergulho no flagrante das tonalidades; banhadas em seu momento, as coisas entregam-se ao declive dos contrastes. Mesmo um simples jarro de água e um copo vazio sobre a mesa fulguram ao sabor do momento, irmanados no pequeno espaço”, diz o emblemático Pintor sereno, a respeito do artista italiano Giorgio Morandi.

Na esteira do registro das impressões, Paixão formula (ou capta?) imagens de altíssimo lirismo. Nisso é extremamente feliz, porque em cada quadro-texto fica, além da expressão peculiar, a lição de que a poeticidade de um texto de natureza não-poética (lembre-se que Palavra e rosto é um livro de aparentes comentários sobre textos escritos ou ainda por ser) não se dá apenas pelo emprego da linguagem metafórica, e sim por especialmente o discurso integrar-se de tal maneira ao assunto tratado que ele, base de representação, parece tornar-se parte da coisa representada, para a qual o leitor é incitado a se dirigir: “Imagine um espaço negro, condição para o desconhecido, e o risco do poema abre um atalho sugerido – círculo de giz em suspenso. O branco da linha, conduzido a ritmo, corre simultâneo ao dizer dos versos”, diz Linha de giz. Noutro lance, Paisagem chinesa, a plasticidade é ainda mais profunda:

É o que ocorre lembrar diante de uma cena corriqueira, mas claramente expressiva, vista da janela. De repente, o fragor da chuva assalta o campo e rabisca o espaço, oferece uma rima visual entre os degraus próximos da soleira e a lonjura do verde. A fachada da casa ganha uma atmosfera de outro tempo enquanto é fustigada por pingos que, afinal, se esbatem líquidos sobre a relva, a folhagem e os muros. A impressão geral é de migração de um fogo em flocos, entendida a chuva como uma cortina de passagem.

Suavizando o mundo
Depois das variadas fases do século 20 em que a literatura absorveu um teor sociológico para irmanar-se às lutas por justiça social, muitos tornaram expediente comum a exigência de a literatura expor as feridas vivas do real (pode-se tomar como exemplo boa parte da prosa contemporânea brasileira, a qual se volta para a abordagem da violência urbana).

Apesar do considerável abrandamento das dicotomias ideológicas – as quais outrora nortearam a literatura “engajada” -, nossa realidade ainda mantém aspectos extremos, quando não cria outros (atualmente as grandes cidades produzem fortunas sufocando seus cidadãos com uma injustificável perseguição no trânsito). Esse lastro, apesar de doentio, torna saudável a literatura que se sensibiliza com o desconcerto e o desconserto do mundo pós-moderno.

Mas não se pode exigir que a literatura tenha uma única forma para negar o que se coloca diante de nós como “agora é assim mesmo”. Por apresentar uma linguagem sempre suave, impregnada de delicadeza e formuladora de imagens brandas e eólicas como a plumagem de uma gaivota pousada em seu vôo, Palavra e rosto é um livro destinado, para tomar uma feliz expressão do poeta Sebastião Edson Macedo, a apascentar o tamanho do mundo.

A febril especulação imobiliária, que nos lança a todo o momento à crença de que perdemos uma ótima oportunidade (sem que ao fundo sequer a desejássemos antes de conhecê-la), aparece no livro numa metáfora do conflito entre o progresso urbano e o trabalho intelectual. Em Difícil edifício, um prédio põe sua hipérbole no meio do caminho de um crítico literário:

Havia o livro de versos sobre a mesa, em paralelo à feiúra grotesca do prédio tão à vista, insolente – e, intensa, bateu a desolação naquele homem, que logo se levantou da cadeira e esfregou com força as mãos no rosto. Como continuar a tarefa de análise literária em face do horizonte que se anunciava?

Nesse conflito, seja alegórico ou literal, todos nós, intelectuais ou não, declinamos ao menos em parte, a exemplo do crítico, personagem do texto. Mas ao lado da constatação, não necessariamente pessimista, antes realista, aparecem manifestações que apagam com plumas a estridência da cidade: “Contra uma vaga anônima de homens e mulheres, imagine-se a ventania, o intempestuoso em cortes de relâmpago, embaraçados todos. Fixado numa hora qualquer, pode-se imaginar o estorvo coletivo. E teríamos o dia vertente em outra maneira: a leveza da curva, a inclinação sinuosa do rosto, a vontade de luz subindo por degraus alheios. Frenesi nas esquinas. E nos seios”, diz o belo Ceia dos bárbaros.

Os demais textos mantêm a unidade de Palavra e rosto. Por toda a sua extensão, nada se vê de gratuito ou de excessivo, embora num ou noutro momento seja percebida uma música silenciosa marcada por certa monotonicidade, que a impede de integrar-se à sinfonia geral, como aliás se integram tão bem as gravuras de Evandro Carlos Jardim. Mas a simplicidade do projeto torna o resultado exitoso. Escrevendo como um “coletor de detritos ansiosos”, Fernando Paixão emoldura seu rosto com as palavras do mosaico formado pelo que lhe traz os ventos da imaginação e pelas ondas subterrâneas dos dias. As mesmas ondas que, sem a mão do poeta, permanecem brutas e condenadas à ordinariedade da existência comum.

O autor
Fernando Paixão nasceu em Beselga (Portugal), em 1955. Chegou ao Brasil em 1961. Formado em jornalismo, foi diretor-editorial da Editora Ática. É autor de livros como Fogos dos Rios, 25 Azulejos, O que é poesia, Poesia a gente inventa, Rosa dos tempos e Poeira, esta vencedora do prêmio APCA. Vive em São Paulo (SP).

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