Carlos Nejar escreve sobre o poeta francês Apollinaire

Apollinaire, O Poeta dos Caligramas

(por Carlos Nejar)

Guillaume Apollinaire (1880-1918), poeta francês, dos inventivos e desconcertantes da criação contemporânea. Há uma infância nele que as palavras absorvem, uma primitividade que nos leva à lembrança dos povos ancestrais, uma vontade de imaginar, desmontando a linguagem, criando pontes entre palavras, desenhando-as nas páginas brancas com nova flora e fauna, como se um pintor fosse, de versos.

Recomendo aos leitores a tradução excepcional feita por Álvaro Faleiros dos Caligramas, publicadas por este poeta maravilhoso do livro, da Ateliê Editorial, que é Plinio Martins Filho.

O que o Concretismo brasileiro não conseguiu, por colocar letras soltas, ou vocábulos soltos no espaço-tempo como bibelôs, Apollinaire alcança magicamente, ao manter o nexo, a junção corporal e espiritual das palavras no texto, de onde vem a vida, a tensão, “as palavras que se amam” (André Bréton). E ali “a topografia constitui um nível autônomo de representação, criando tipos de relação particulares entre os elementos” do poema, na opinião de Ruwet (1979).

A pontuação é substituída pela disposição dos vocábulos na página e há um trabalho vertiginoso no campo semântico, com resultados de fascinante beleza.

Vejam exemplos: “ESTE/ARBUSTO/QUE SE PREPARA/PARA FRUTIFICAR/A TI SE/AS/SE/ME/LHA”.

Este outro, escrito em ondulação: “Meus tapetes do sabor monções dos sons obscuros/ e tua boca de hálito/ azul”. Ou “Viagem (fragmento)”: “(em linha reta) Onde vai este trem que morre ao longe de um terno verão sem cor?” Há descobertas em cada poema, pois nele, como diz o poeta “um pouco/mais abaixo/é seu coração/que bate”.

(Publicado no Diário da Manhã, de Goiânia. Escrito pelo poeta, ficcionista e crítico Carlos Nejar)

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